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segunda-feira, 8 de maio de 2017 | By: Daíza de Carvalho

Corrida Ainda: deficientes vão pegar carona com corredores

Repaginado, evento quer atrair mais atletas da região e chamar atenção à causa

Daíza Lacerda

"As pessoas poderão conhecer um pouco as nossas dificuldades, mas também nos ajudar. Esperamos que a corrida atraia cada vez mais gente". A expectativa é de Luís Irineu, um dos atendidos da Associação Integrada de Deficientes e Amigos (Ainda). Ele participará pela primeira vez da corrida realizada pela instituição, que chega à 11ª edição, com outros 9 usuários que terão a oportunidade de percorrer 5 km em triciclos específicos, emprestados à entidade, que serão guiados por três corredores em revezamento.
A participação efetiva dos deficientes atendidos marca uma mudança no tradicional evento, que passa a se chamar "Corrida sem barreiras", atentando à causa da deficiência. A Caixa Econômica Federal mantém o apoio à corrida, como patrocinadora desde a primeira edição. Neste ano, a organização é da Scuderia e responsáveis do projeto "Pernas de Aluguel", de Campinas, ajudarão com o empréstimo dos triciclos que levarão os deficientes à corrida.
"É um evento importante não só para divulgar o nosso trabalho, mas também para mantê-lo", ressaltou Kédima Silva, gerente da Ainda. Ela salienta que os recursos provenientes da prova são os principais no orçamento da entidade, que tem despesas na faixa de R$ 30 mil mensais. De acordo com ela, os primeiros meses deste ano fecharam com saldo negativo. Com cerca de 40 usuários a partir dos 5 anos, o total de atendimentos ficam entre 800 e 900 por mês, com demanda maior na faixa etária entre 18 a 35 anos. O que mais pesa no orçamento são os recursos humanos. "É necessária equipe especializada para atender. Às vezes são dois profissionais para um atendido", explica.
ORIGENS
O prefeito Mario Botion lembrou das origens do evento, salientando que era voluntário da entidade antes de pensar em entrar na vida política. Recordou como a iniciativa nasceu numa conversa durante treinos com José Carlos da Silva, o Fumaça. Precisava de ideias de como divulgar a instituição e buscar recursos. Fumaça, que já conhecia o caminho, com a realização de seu campeonato anual, auxiliou desde o início por meio da Associação Limeirense de Atletismo (ALA), que permanece como parceira do evento.
O objetivo é alcançar o número de mil inscritos, atraindo mais atletas da região, principalmente de grupos como o de academias, como salientou Eleuses Brandeker, da Scuderia. No ano passado, foram cerca de 600 participantes, com estimativa de 30% de outras cidades.
O município também é cotado para receber o projeto "Experimentando Diferenças", patrocinado pela Caixa. Gerente regional, Evandro Nobre falou da intenção de acertar uma agenda no município para o programa proporciona a oportunidade viver as experiências que as pessoas com deficiência têm. Nobre ressaltou a importância do trabalho da entidade que vai de encontro com a missão da instituição que representa, de melhorar a qualidade de vida.
A CORRIDA
O percurso permanece o mesmo, com largada do Horto Florestal e trajetos de 5km e 10 km para corrida, além de 3 km para caminhada. A Voltinha da Inclusão, com percurso de 200 metros, é voltada às crianças de 6 a 12 anos. Deficientes visuais e cadeirantes na categoria T11 também podem competir.
Desde as duas últimas edições as premiações não são mais em dinheiro, o que permanece na atual. Serão premiados com troféus os cinco primeiros gerais nos 5km e 10 km, deficiente visual e T11, tanto masculino quanto feminino em todos. Nas categorias a cada 10 anos os primeiros serão premiados com um medalhão. A premiação é prevista para participantes entre 16 anos de idade e acima de 70.
As inscrições custam R$ 70 e podem ser feitas pelo site www.corridasembarreiras.com.br ou nas academias.



Nova edição da corrida prevê inclusão
na prática e nº ampliado de participantes
Foto: JB Anthero/Gazeta de Limeira


"Carona" será optativa
nas próximas edições


Os 30 corredores que se revezarão ao guiar os 10 deficientes nos triciclos serão indicados pela entidade. Mas o objetivo é que esta seja uma opção do corredor durante as inscrições a partir das edições seguintes, como explica o diretor de Esportes da Ainda, Nestor Rossetti.
Além do empréstimo, são previstas campanhas para a compra de algumas unidades. Feitas em alumínio e pesando cerca de 14 kg, cada uma custa cerca de R$ 1,5 mil. "Se conseguirmos com recursos próprios, o objetivo é levar os usuários para participarem também de outras corridas", explica. (Daíza Lacerda)


Obras na via Jurandyr Paixão não
serão retomadas até a corrida


A via Jurandyr Paixão, que será pista dos participantes da corrida, não deve ter as obras retomadas até a data do evento, como informou o prefeito Mario Botion. Ele esclareceu que, independentemente da corrida, medidas foram tomadas para prevenir acidentes no local, que estava com desníveis e valas abertas no acostamento. A segurança deve ser garantida para o evento, ainda que a situação das obras ainda não tenha um desfecho no decorrer do mês.
Conforme a Gazeta tem divulgado, as obras não foram retomadas pela empresa neste ano, e a prefeitura rescindiu o contrato. Ainda não foi definido juridicamente se a segunda empresa da licitação poderá assumir ou se será necessária outra licitação. (Daíza Lacerda)



Publicado na Gazeta de Limeira.
domingo, 8 de janeiro de 2017 | By: Daíza de Carvalho

Robinho: falta uma perna, mas sobra disposição


Robinho adotou o lema "o limite é só o começo",
que resume a sua jornada
(Foto: JB Anthero/Gazeta de Limeira)

Limeirense que passou por dois cânceres e uma amputação busca o triathlon paralímpico

Daíza Lacerda

Muita gente começa o ano com o propósito de se movimentar como uma das resoluções. Para Douglas Aparecido Antonio, o Douglas Robinho, de 28 anos, ficar parado não é uma opção. Com uma das pernas amputada há mais de um ano, o rapaz mergulha no esporte como filosofia de vida, sem ter deixado se abater por dois cânceres que o acometeram antes da amputação.
A sua história é conhecida dos gupos de ciclismo de Limeira, já que o limeirense se dedica a pedalar cerca de 60 quilômetros quase todos os dias. Sem prótese. O equipamento, que é alívio de alguns, já significou um peso para quem se redescobriu voando sobre rodas. Isso porque uma prótese interna é que limitava o rapaz, que ganhou as ruas e trilhas quando se viu, finalmente, com uma perna só.
O apelido Robinho remete ao início da adolescência, quando jogava futebol. Com 14 anos, passou pelo Independente, Inter e Guarani. Sem incentivo, a carreira não deslanchou e o jovem deixou o futebol para trabalhar, aos 15 anos.
Foi há 11 anos que ele teve diagnosticado o primeiro câncer, maligno, que atingiu o fêmur e o joelho esquerdos. Seguindo a orientação médica, não amputou, mas recebeu uma prótese interna. Foi quando adotou a natação para recuperação, em esporte que não deixou nunca mais.
A perna era só "para inglês ver", já que a falta de movimentos mais o limitava do que ajudava. "Não conseguia dobrar. Além da musculatura fragilizada, que não respondia aos movimentos, tinha um encurtamento de 9 centímetros. Já era dependente da muleta", conta. Nessa condição ele já participava do projeto de Cicloinclusão, mas só conseguia usar triciclo, bem longe das trilhas. 
MENOS É MAIS
Quatro anos depois do primeiro câncer, foi identificado o segundo. Desta vez, na virilha, também do lado esquerdo. Robinho encarou as quimioterapias, fez tratamento por oito meses no Instituto do Câncer em São Paulo e seguiu a vida. Passada mais de uma década da implantação da prótese, o "corpo estranho" é que começou a dar problema. "Depois de tanto tempo, houve rejeição da prótese, e havia risco da infecção se espalhar. Só aí houve decisão médica pela amputação, que eu já queria desde a primeira intervenção", explica.
Por ter contato com várias pessoas amputadas, ele já colhia informações sobre o que esperar, como possibilidades de infecção e processo de cicatrização e recuperação, o que tornou o processo ainda mais tranquilo. "Foram experiências que me ajudaram também psicologicamente", acrescenta.
Quando pedalava com triciclo, a perna com prótese era como um bebê que tinha que ser protegido de todas as formas. Qualquer batida poderia representar danos muito maiores ou longos tratamentos com medicações, tudo o que ele não queria. Por isso a amputação foi uma porta para a liberdade.
"Ficou muito mais fácil praticar esportes. Comecei a pedalar amarrando o pé no pedal, me equilibrando. Depois fui pegando mais confiança com o firma pé, e fiz trilhas assim por um mês. Tive ganho muito rápido e parti para a sapatilha. Afinal, com um ou dois pés, se tiver que cair, vou cair", diz ele, sobre o calçado que se encaixa no pedal, capaz de provocar tombos bobos até que o ciclista ganhe habilidade em usá-lo.
ALÉM
O início de treino em corrida é com o objetivo de disputar provas de paratriathlon ainda este ano. Só que, em vez de cadeira, ele vai de muletas. Ainda está se acostumando com as dores, mas nem a cadeira e nem a prótese são opções. Como ele sofreu uma desarticulação de quadril, não tem coto, e a prótese específica custa R$ 95 mil. Ele até usa uma no dia a dia, mas a apropriada para o esporte é inviável.
Afastado de seu emprego no comércio há 11 anos, Robinho deve voltar a trabalhar neste ano. Enquanto isso, recebe ajuda de parceiros que viabilizam equipamentos, orientam em treinos e apoiam para os provas, que têm custo de hospedagem, inscrição e transporte. "Minha vida de esportista só é possível com essas parcerias. Quero fazer provas mais longas, mas como amador, para poder relatar as experiências em meu livro", anuncia, sobre material preparado para este ano. Apesar da preparação para o triathlon, mais comum no asfalto, suas primeiras provas devem ser em trilhas.
SEM LIMITES
Ao fazer um balanço de suas experiências e sua condição, Robinho argumenta que "problemas todo mundo têm, a diferença é como cada um encara". Ele prefere viver de forma intensa, se questionar. Adotou como slogan que "o limite é só o começo", que resume a sua jornada. "Toda vez que parecia que algo ia me limitar, eu pude viver de outra forma. Então pergunto: de que forma se quer viver?".
O rapaz de uma perna só é sustentado por um tripé: Deus, família e amigos. "Sem essa base eu não conseguiria atingir nenhum dos meus objetivos". A posição otimista é tão natural que ele às vezes estranha tanta dificuldade que os outros veem e ele não. "É o que tenho, e tento fazer as coisas com prazer".
Robinho pode ser contatado pelo e-mail douglasrobinho7@hotmail.com e pela página do Facebook Douglas Robinho.





terça-feira, 6 de setembro de 2016 | By: Daíza de Carvalho

O interior na serra (do rio do rastro)

Deixei minhas pegadas num dos lugares mais bonitos do mundo. Mas quem saiu marcada fui eu. Porque não dá para se conter quando se está à beira de um penhasco com a imensidão verde à sua frente. E acima, e abaixo. Quando é tão perfeita a obra da natureza e o atrevimento do homem ao ousar se colocar ali. Nós ousamos. Mesmo sem saber, no início, o que isso significaria.
Sábado, 3 de setembro de 2016, às 7h, foi dada a largada para a terapia mais insana e mais profunda que eu poderia ter me submetido: subir, correndo, a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.
Não lembro bem o que me levou a fazer a pré-inscrição para essa corrida há um ano, assim como confirmar a inscrição quando fui sorteada. Sim, porque o número de vagas é limitado, e liberado por sorteio, com chamadas consecutivas quando há desistência. A doidera começou em 2013 com prova de 42k com largada em Treviso-SC. Mas, neste ano, foi incluída prova dos 25k, com saída em Lauro Muller-SP, ambas com chegada no mirante da serra, a mais de 1.400 metros de altitude. Se você acha que não há loucos o bastante, havia ainda o Desafio Samurai, para quem tivesse currículo para encarar as duas provas (25k às 7h e 42k às 15h). O "privilégio" é só pra quem tem marcas de 1'20 em meia maratona e 3'20 em maratona.
Consta que (http://chipbrasil.com.br/brlive/brlive-bsb.html?f=resultados/bsb/bsb.mizunomarathonuphill.03092016.clax), das 496 pessoas que largaram nos 25k, 322 completaram. Foram 113 mulheres entre 177 (fiquei em 48ª colocação) e 209 entre 319 homens. O primeiro a chegar foi Fernando Beserra, que é coletor de lixo em SP. Ele fez o desafio Samurai, chegando em 4º dentro do tempo limite de 6h para as duas provas. Um pouco sobre ele aqui: http://esportes.estadao.com.br/blogs/corrida-para-todos/a-montanha-e-o-samurai/.

O tormento dessa prova não são só os mais de 1.200 metros acumulados de elevação (como efeito de comparação, o morro azul tem 100m!), mas o tempo limite para garantir a medalha. Um terrorismo que considero besta por parte da organização, mas que sempre esteve lá no regulamento. A medalha e camiseta survivor só seriam entregues para quem chegasse até 3h30 nos 25k e em 6h nos 42k (que no fim das contas foram 44k, tirando muita gente do páreo e resultando numa retificação, na mais grave das trapalhadas da x3m, que DESorganizou o evento).

Daí você pensa: qual estratégia vou usar para alcançar o topo, de preferência dentro do tempo? Se é que posso chamar disso, minha única estratégia foi não ver o pace no relógio, só controlar a quilometragem para hidratação e gel. E correr até as pernas não aguentarem mais, no ritmo que fosse possível manter naquelas horas. Era indiscutível que eu iria andar, e muito, mas a meta era que isso ocorresse o mais tarde possível.

Não dá para embrenhar sobre essa experiência sem falar das tantas pessoas cujos caminhos foram cruzados graças ao desejo de conquistar a serra. Participo de um grupo criado no Whatsapp pra galera se ajudar, seja com informações de treinos, voos, hospedagens, estratégias, e puxões de orelha para sair do zap e ir treinar. E, tanto quanto a beleza da serra, o convívio com esse pessoal não tem preço. Gente de todo lugar e com todo tipo de preparação e das mais variadas experiências, mas todos duros na queda. Tiveram ainda os anônimos que esbarramos serra acima, e não encontrei ninguém que não estivesse disposto a ajudar ou animar o desconhecido ao lado - ou atrás. O clima solidário entre os participantes desta prova foi realmente sensacional, nunca vi algo parecido. De alguma forma, parecia que todos estavam no mesmo nível, a luta de um era a luta do outro, sem importar qual dor pesava mais.

A PREPARAÇÃO

Minha ficha só começou a cair algumas semanas antes da prova, quando comecei a conhecer o currículo recheado de alguns participantes e a questionar o que eu ia fazer naquele lugar com experiência zero em corrida de montanha, sem a mínima noção do que é ladeira de verdade. Nos treinos, não mudei muito daquilo que fiz na preparação para os 42k de SP em abril, mas precisava acostumar com as subidas. Se você pensa que Limeira tem ladeira, sinto dizer: não tem. Haha! Revirei meus registros de treinos no Strava pra ver qual percurso tinha a maior elevação em menor quilometragem e, fora o morro azul, qualquer subida da cidade era uma piada. Avenida Laranjeiras, Lauro Correa e Eduardo Peixoto foram as principais nas quais me arrastei repetidas vezes pra acumular uma altimetria minimamente decente, já que não dava para "acampar" no morro.

Fazia treinos de 22k para 450 metros de elevação, pra isso tendo que subir a Lauro Correa e a Eduardo Peixoto três exaustivas vezes consecutivas. No morro, sempre fui acompanhada do parceiro de roubadas, meu namorado Andre Pelayo, na escolta de bike. Como já disse antes, é muito amor pra acompanhar no morro, porque é uma subidinha ingrata, não importa o modal, chega-se morto no topo. Passamos a subir só o lado da cerca, e ainda sonho com o dia que não vou vacilar nele.

Daí batia o desespero: se não consigo encarar nem o morro direito, o que vai ser de mim na serra?? Afinal, as informações sobre a porcentagem de inclinação eram desencontradas, a DESorganização falava em média de 59%. Oi? Então eu nunca sabia se o treino era ideal ou não, mas sempre estive ciente que jamais seria suficiente.

Os meses, e principalmente semanas que antecederam a prova foram de um inferno astral desafiador. Passei a segunda e terça anteriores com muitas dores, e a saída, programada de moto, na quarta, foi frustrada por um dilúvio que durou a manhã inteira e exigiu mudança total de planos. O importante é que, depois do que pareceu um ano, agosto terminou e seguimos viagem, numa semana inteira sem treinar, umas duas (ou mais) sem academia, alimentação indecente e um cagaço que me acompanhou cada km nos 1000 km de viagem até o sul. Tudo isso pra chegar na sexta à tarde em Criciúma-SC e descobrir que os restaurantes fecham às 14h! Porque é claro, comer porcaria é tudo o que a gente precisa em véspera de prova... E não podia nem falar em massa após passar duas noites jantando pizza! Ah, sono? Que sono? Com baladeiros na vizinhança do hotel e a ansiedade a mil, foi uma noite "daquelas"... pra levantar às 4h a tempo do café e do transporte até a largada antes de fechar a subida da serra.

A PROVA

Aqui em SP estamos acostumados com o maior circo nas vias quando tem prova, mas isso não aconteceu na Uphill, que lotou hotéis da redondeza. O caminho até a largada não tinha um banner sequer orientando sobre interdições ou mesmo sobre o local exato da largada. Dava pra passar por Lauro Muller sem saber que um evento desses aconteceria ali. O pórtico de largada ainda estava em montagem menos de uma hora antes de largarmos. Depois eu soube que o circo foi montado em cima da hora também na chegada. Foram inúmeros os furos da organização da x3m (a cereja do bolo foi o percurso maior nos 42k, que tirou muita gente injustamente). Não vou detalhar agora, mas a Mizuno devia ficar ligada e contratar uma empresa que faça jus à imagem da marca, antes que seja tarde.

Enfim, a previsão do tempo ameaçava vento e chuva na serra. Friorenta que sou, fui preparada para qualquer coisa abaixo de zero: touca, luvas térmicas, segunda pele, camiseta, blusa flanelada e corta-vento. Não me arrependi do exagero, conhecendo o meu "termômetro", o vestuário foi confortável mesmo quando o corpo esquentou. Sou daquelas que bate os dentes com meros 17ºC.
Não conhecia a região, mas deu pra perceber que o tempo é bastante, digamos, dinâmico por ali. Uma hora tudo aberto, noutra, tudo fechado. Nos primeiros kms parecia que correríamos mesmo em meio à névoa, sem comer a serra com os olhos. Quando foi dada a largada ao som de Enter Sandman, do Metallica, éramos algumas centenas, provavelmente a maior parte rumo ao desconhecido. Eu, que tanto desejei conhecer a serra de moto, e também de bike, daria risada se lá atrás alguém me dissesse que a minha primeira vez seria com fogo nas canelas. Porque foi o que senti nos primeiros kms, considerados "leves". Dizia a lenda que a brincadeira ficaria séria mesmo nos últimos 10k, sobretudo nos últimos 5k. Mas na primeira subida braba, no km 2 ou 3, já tinha gente andando. Alguns comentários sobre o que viria também me assustaram, mas mantive o passo - lento, mas contínuo.
Perto do que estamos (nós, paulistas) condicionados enquanto cidade e comunidade, aquele entorno parecia nada além do que o meio do nada. Um belo meio do nada, com algumas casinhas encrustadas na beira da estrada, sempre com algum morador interessado e incentivando os corredores. Não é nada parecido como o que se vê numa São Silvestre, por exemplo. Não há multidão. Há um cidadão ou outro, que teve a sua rotina alterada pela nossa presença, e na maioria das vezes parecia tentar fazer com que sentíssemos bem-vindos, fosse com um aceno ou um simples sorriso.
Quando as casas começaram a ficar raras, animais é que davam sinal de vida, ali, do lado do guardrail. Quando estes estavam escondidos, a vida pulsava forte das entranhas da floresta sem fim, à frente e abaixo, sem limite a partir daquela faixa sinuosa de concreto que era o nosso tapete vermelho. Do outro lado, paredões, rochas, minas, flores (muitas hortênsias!). Nunca corro sem ouvir música, mas, desta vez, abaixei o volume, não para ouvir, mas para sentir a serra. Talvez a Marisa Monte descreva melhor este momento numa de suas lindas canções: "atenção para escutar o que você quer saber de verdade".

Eu sabia que a dificuldade viria, sem ter certeza de quando. E não saberia se seria punk o suficiente pra tirar o meu deslumbramento. Só segui o melhor conselho que poderia ter recebido: curtir a passagem. Sorri, chorei, pensei, pesei a minha vida e outras vidas. Me questionei, afinal, qual era o objetivo de estar ali, e pensei em tantas lutas de gente que amo, todas com algum propósito prático, diferente de alcançar o topo de uma serra. Pensei na minha mãe, na minha avó falecida recentemente, e a pirambeira que essa vida foi e é para elas, e qual a recompensa disso.

São coisas que nunca vou poder mensurar, mas talvez eu procure, em desafios assim, autenticar um tiquinho da força delas, para ir além da serra, para a vida e avante. Porque embora a elevação exija muito do corpo, a mente é que manda. Isso era o que eu pensava, e isso serviu para 42k no meio da selva da cidade. Na serra, longe da "civilização", a cabeça tinha que estar no lugar, mas quem mandou foi o coração. Quando se desliga de pace, de medalha, de qualquer performance para estar sensível ao que a serra tem a transmitir, é como se todos os outros sentidos fossem amplificados. É uma conexão que não há como explicar. É o interior na serra. Eu achei que isso fosse só uma frase num vídeo que fiz pra falar que encontrei corredores de cidades vizinhas no trajeto. Mas é mais. É isso, em essência: o nosso interior na serra.

Para quem esperava um clima sinistro, fomos agraciados com sol e trégua da névoa. Estava ali o nosso prêmio, ao nosso redor. Quando as curvas fechadas começaram, ecoavam incentivos de quem estava mais acima, para aqueles que tinham mais um cotovelo da serra a dobrar.

A largada foi fria, aqueci pouco. Além da queimação nas canelas, meus pés formigavam demais nos primeiros quilômetros. Mas, depois de um tempo, meio que me condicionei à situação e esses incômodos me deixaram. É como se o corpo tivesse acostumado a só subir, subir, subir, e mantive um ritmo constante no avançar dos kms, descobrindo a dureza e a beleza de cada curva. Mantive a corrida ou trote até o km 17, mais ou menos, até o início das curvas fechadas. Naquele ponto, não lembro de ter visto ninguém mais correr, mas invariavelmente juntava uma turminha pra dar um gás até a próxima placa, ou até a próxima "esquina", na estratégia de última hora de fazer cada quilômetro em até 10 minutos, para chegar dentro das 3h30.
Passei por senhor que disse que faltava 1h10, e ia dar. Eu só via a hora quando pegava o celular para tirar fotos, mas tentava não me preocupar com isso. Num dos trechos, a discussão com um pessoal foi sobre a filosofia barata de planilhas para Uphil. Hahaha, como pode existir planilha para aquilo?? Simplesmente não existe receita "certeira" para se preparar. Um pessoal de bike sempre aparecia para um apoio moral, alguns explicando que subir com a magrela era tão difícil quanto correndo, mas de modo diferente.

Nos últimos 5 kms, o jeito foi não esmorecer no passo. Eu pelo menos não tinha a menor condição de correr ali, e minha conclusão foi que tentar isso seria tão desgastante quanto inútil no tempo final, então o melhor era manter a caminhada na filosofia da tartaruga: sem pressa, mas sem parada.

A única paradinha que fiz foi no km 15 para pegar isotônico, banana e gel (o pouco que sobrou no posto). A partir dali eram inúmeras as garrafas jogadas no chão, cheias de líquido, num desperdício lastimável, assim como a falta de agilidade da "produção" em repor os produtos.
Geralmente só uso gel, água e isotônico, sem exagerar muito pra não pesar. Não comi nem o pé de moça que levei, mas mandei ver nas bananas. Também não usei sal, não sou acostumada e nem senti necessidade. Sou medrosa em ousar na alimentação durante a prova em qualquer coisa que vá além do que a carcaça está condicionada. Até agora não tive prejuízo.

Bom, só sei que a chegada se aproximava e, diferentemente da experiência da maratona, só consegui sorrir! Simplesmente NÃO TINHA como não sorrir naquele lugar e naquela situação. Vai mais um clichezão: chegar ali com a força das próprias pernas não tem preço. Não tem. No fim da serra, ao longe, as árvores se perdiam na névoa. Após a mítica escalada, estava finalmente batendo à porta do céu.
Até que o concreto dá lugar ao asfalto, e uma placa avisa que estamos próximos do mirante da serra. A paisagem muda repentinamente. Retomo o trote e vou acelerando. Naquele ponto já havia bastante gente voltando pra buscar os quase concluintes e animar. Com um sotaque carregado do sul, um menino me diz para não desistir, que estou chegando, e bate na minha mão. Outros atletas fazem o mesmo e já começo a ouvir as músicas e o locutor. A música que toca, Highway to hell, não poderia ser mais equivocada. It's a long way to the top if you wanna rock n' roll seria mais apropriada!
A serra acabou. Desabo no choro, é claro, poucos metros antes do pórtico de chegada. Quando o atravesso, sou outra pessoa.

CONCLUSÃO

Pouco após a minha chegada, a névoa cobriu a serra e não consegui ver nada do mirante. Mas fiquei com a cereja do bolo, a serra em si, km a km. Quando descemos, de carro, e paramos em outros mirantes, eu olhava para as ladeiras e não conseguia acreditar que tinha subido tudo aquilo, passo a passo. Os detalhes "mensuráveis" estão no Strava: https://www.strava.com/activities/698990292.

Uma das conclusões possíveis é que a força da natureza também é a nossa força. Isso eu considero também pela experiência dos colegas que concluíram acima do tempo estipulado e daqueles que deixaram a prova, na difícil e prudente decisão de optar pela saúde em vez de um título. Pelo marketing da prova, quem chega é um "ninja runner". Mas esse título está longe de exprimir o significado até mesmo da tentativa de uma travessia em que o fora é só um pretexto para enveredar dentro.

Não se trata de uma experiência só para conhecer ou derrubar os nossos limites. A coisa que a corrida proporciona, e que muita gente não entende, é o equilíbrio. Tentar colocar nossos anjos e demônios no devido lugar, ainda que seja preciso se entregar ao caos entre eles. Às vezes parecemos funcionar à base de metas, mas estou aprendendo que a verdadeira razão só descobrimos depois. No fim, o queremos é ser mais fortes. Mesmo se desmanchando perante à realeza (a serra). No fim da curva, a serra é a vida. Sempre tem algo esperando que só vamos saber se ousarmos avançar.



















quinta-feira, 21 de julho de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Limeira vive dia olímpico com passagem da tocha




Chama olímpica passa em Limeira sem incidentes

Revezamento atraiu populares às ruas e também despertou protestos

Daíza Lacerda

Dois extremos marcaram o dia de ontem para os condutores da chama olímpica em Limeira. A calmaria da concentração nos ginásios do Sesi e Vô Lucato no final da manhã deram lugar à euforia das ruas, em revezamento que teve a participação de quem passava pelo trajeto ou se programou para assistir a condução da tocha olímpica.
A nadadora paralímpica Beatriz Zuzi, de 19 anos, não garantiu colocação para participar dos Jogos, mas teve, na condução da chama, a sua realização. "É um meio de sentir quase a mesma emoção. Não conseguia acreditar quando meu nome foi confirmado, mas fiquei muito feliz. É um momento único para mim, para a cidade e o país, pois não sabemos quando isso se repetirá".
A funcionária pública Priscila Pereira, de 36 anos, estava preocupada em não tropeçar e cair no trajeto. "É uma festa bonita, apesar dos protestos, pois nem todos entendem o espirito olímpico, que independe de questões políticas. É um simbolismo forte".
Baiana radicada em São Paulo, Zingara Atta, de 37 anos, foi um entre três funcionários selecionados de uma empresa que fornece tecnologia para as Olimpíadas, cada um alocado num local para o revezamento. Para ela, que já tinha referências de Limeira pelo setor de joias, a condução simboliza uma virada de ciclo. "Há cinco anos eu não teria condições físicas de fazer isso. Estava obesa, perdi 44 quilos e o esporte passou a fazer parte do meu novo estilo de vida", conta.
Aos 23 anos, Lucas Chung Man Leung foi um dos condutores mais animados, pedindo participação dos populares e entoando gritos de de guerra. O estudante da Unicamp em Limeira foi selecionado por se destacar num intercâmbio e vencer um concurso da embaixada britânica, além de fomentar projetos sociais entre estudantes e comunidades de Limeira, como o bairro Geada. Para ele, as Olimpiadas são motivo de esperança no contexto brasileiro atual, principalmente por meio da educação. "É o ponto de partida para projetos que podem atingir qualquer um, beneficiar comunidades, trazer alegria. O meu lema é acordar todo dia e fazer alguém feliz".
Indicada pelo COB, a atleta Maíla Machado falou da alegria em conduzir a chama no lugar que nasceu, mas chama atenção para a necessidade de mais apoio aos atletas. "É uma oportunidade para que patrocinadores abram os olhos, pois há muito jovem sem chances para deslanchar. A cidade também deixa muito a desejar em incentivo, e deve apoiar mais para que seus atletas não precisem sair daqui".


Estimativa inicial é de 
30 mil participantes

Nas ruas, o revezamento foi festejado por adultos e muitas crianças, ainda que o evento sofresse alguns protestos, como um rapaz que acompanhou o comboio com cartazes questionando prioridades no País em relação à tocha. Nas vias liberadas, motoristas observavam e alguns apoiavam com buzinas.
Nenhum incidente foi registrado no trajeto, como informou Gino Torrezan, secretário de Desenvolvimento. "Parabenizamos a população que recebeu muito bem o evento, respeitando o comboio. Os condutores foram muito aplaudidos e muitos saíram de suas casas ou trabalho para ver esse símbolo que talvez não passará mais em Limeira".
Pela distância do trajeto, de cerca de 6 km, a estimativa inicial é de 30 mil pessoas no percurso, conforme o secretário. No entanto, a extensão do público deve ser aferida pelos critérios da Polícia Militar e Guarda Civil Municipal, em avaliação do evento que deve ocorrer ainda nesta semana.
Torrezan lembra que foi um ano de planejamento conjunto com o Comitê Olímpico Brasileiro, que proveu experiência de um evento feito com vários órgãos das esferas federal, estadual e municipal. O município também deve receber uma avaliação do Comitê, quando o revezamento for finalizado. (Daíza Lacerda)

Emocionados, condutores 
pedem incentivo ao esporte

Além de atletas olímpicos, revezamento reuniu pessoas de diferentes cidades e históricos

Daíza Lacerda

Um comboio de diversos veículos antecedeu a chegada dos condutores da chama olímpica, que tinham o ponto de revezamento previamente marcado. A condução da tocha começou sem atraso, pouco depois das 13h, com a suspensão do tráfego poucos minutos antes do início, na avenida Major José Levy Sobrinho.
Ovacionado, o atleta paralímpico Odair dos Santos assumiu a condução ainda na Boa Vista, assim como a atleta Maíla Machado. A concentração de espectadores foi maior no Centro, mas em diversos pontos trabalhadores de empresas e comércios  também pararam para acompanhar a passagem.
O condutor mais festejado foi José Carlos da Silva, o Fumaça, rodeado por atletas e fãs enquanto esperava a sua vez de guiar a chama olímpica, o que fez emocionado. Ele fez a passagem para o nadador Guilherme Guido, que encerrou o revezamento em palco montado no Parque Cidade. Depois, ele descreveu o momento. "Foi muito bom trazer esse símbolo para Limeira, sentir o calor dos limeirenses e fechar o revezamento. Vi muitas crianças e esse é um meio de incentivar as novas gerações, já que o esporte e educação andam juntos", disse ele, que só soube na manhã de ontem que encerraria o evento. Ele também destaca a importância de olhar para jovens promissores. "Tive a oportunidade de viajar o mundo e no Brasil as coisas acontecem fora de ordem, buscam o atleta pronto. Mas é preciso investir nas bases", defende.
Nascida em Limeira, a atleta do handebol Alexandra Nascimento, de 34 anos, também descreveu a emoção de carregar o símbolo olímpico. "Quando comecei a ver todos torcendo, meu coração saiu pela boca. É uma experiência inexplicável. Estou indo para a quarta olimpíada e não esperava essa sensação", declarou. Ela também recorre ao símbolo da esperança diante das condições do Brasil. "São tempos difícieis na política e na economia, mas a passagem é a busca de um novo espírito. O Brasil precisa de muitas coisas, mas também precisa do espírito olímpico. É preciso pensar em quantos jovens saíram da rua graças ao esporte. É um incentivo para o País, uma maneira de crianças e famílias sentirem um pouquinho do que os atletas sentem na hora do jogo".


terça-feira, 19 de julho de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Revezamento da tocha tem alteração de horário em Limeira




Evento foi atrasado em duas horas, mas início das interdições permanece para às 7h

Daíza Lacerda

O Comitê Olímpico alterou os horários da passagem da tocha olímpica em Limeira. O revezamento, que acontece amanhã, começará às 13h09, partindo da avenida Major José Levy Sobrinho (em frente à Nissan). As vias a serem percorridas são avenida Mogi Mirim; rua Vinte e Cinco de Março; rua Tiradentes; rua Dr. Trajano de Barros Camargo; rua Senador Vergueiro; avenida Dr. Alfredo Ferraz de Abreu; avenida Comendador Agostinho Prada e Via Antônio Cruãnes Filho. O término está previsto para as 14h15, com a chegada no Parque Cidade.
Anteriormente, a passagem estava prevista para iniciar às 11h03, mas equipes que acessam os locais antes do evento fizeram a alteração. Não foram informados pelo Comitê os motivos da mudança.
Limeira receberá a tocha após Rio Claro, em revezamento de 6,5 km. Após a chegada no parque, a chama olímpica permanecerá em exibição durante 15 minutos, com a realização de atrações culturais. Em seguida, o comboio parte para Americana e, depois, para Campinas.
MOBILIZAÇÃO
Limeira terá cerca de 25 condutores, entre atletas e cidadãos, que foram selecionados pelo Comitê Rio 2016. Cada um percorrerá de 200 a 300 metros com a tocha, numa velocidade média de 6km/h. O revezamento acontecerá em pontos que serão previamente marcados pela organização.
No decorrer do trajeto, serão montados três bolsões, com a participação de alunos. Os pontos serão a praça das Nações, no bairro Boa Vista, praça Toledo Barros, no Centro, e avenida Alfredo F. de Abreu, ao lado da Prefeitura.
O revezamento em Limeira terá 300 voluntários, 80 coordenadores e 50 integrantes da equipe de apoio, além da comissão de organização da Prefeitura de Limeira.
CONDUTORES
Limeira tem 22 condutores confirmados, indicados pelas empresas patrocinadoras do revezamento (banco Bradesco, Coca-Cola e Nissan). O Comitê ainda não informou a ordem do revezamento, e outros condutores podem ser confirmados apenas amanhã.
Participarão Adriane Ines Cardozo, Antônio José da Silva, Jorge Abbud, Lucas Chung Man Leung, Fabiana Natashi Maia Moraes, Guilherme Augusto Guido, Leonardo Sampaio Ponzo, Odair Ferreira dos Santos, Ronaldo Francisco Lucato (Lê), Adriano Luiz Alves Bicalho, Eduardo Ferreira dos Santos, Gabriela Albuquerque Gonçalves, José Carlos da Silva (Fumaça), Priscila Antonia Ferraz Pereira, Samara Gomes da Silva, Wellington Barbosa, Zingara Lopes Santana Atta, Beatriz Zuzi Rodrigues, Danilo Martensen da Silva Zanetti, Felipe Novello Garcia, Juliana de Jesus Gonçalves Duarte, Patrícia Cavalcanti Siqueira de Melo.

domingo, 17 de julho de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Símbolo máximo das Olimpíadas nas mãos de limeirenses

Chama olímpica chega a Limeira na próxima quarta-feira e será conduzida em trajeto de 6 km

Daíza Lacerda

No fim da tarde quente no inverno, ele até tenta se esconder no grande chapéu de palha. Se protege do sol, mas os raios ainda o alcançam e ressaltam as marcas do tempo. Mais do que nas pernas ágeis, no rosto de Fumaça está registrado o acúmulo dos anos dedicados ao esporte. Seja ensinando, seja cuidando da pista de atletismo, como fazia na última semana.
O garoto que há meio século trocou o futebol pela corrida se prepara, aos 74 anos, para o feito que não imaginara registrar em sua carreira: carregar a tocha olímpica. "É um acontecimento mundial. Não esperava chegar numa posição dessa. É como se eu tivesse sido chamado para a seleção brasileira", tenta explicar.
Enquanto faz manutenções na pista da qual é coordenador, Fumaça, como é conhecido José Carlos da Silva, olha para trás e pesa o seu legado. "Batalhei, cuidei, e deixo o que sei para os alunos. Tudo que aprendi tenho que passar para alguém. Gosto de ensinar, é um dom que Deus me deu", conta ele, que está há mais de 40 anos dando aulas e agora escolhe as provas para disputas de corrida entre idosos.
Outra referência de Limeira nas pistas está no auge, mas também se prepara para a emoção inédita de participar do principal símbolo dos Jogos Olímpicos, além das disputas das Paralimpíadas do Rio. Odair Ferreira dos Santos perdeu a visão, mas, correndo, conquistou inúmeros pódios mundo afora. Aos 35 anos, sua jornada olímpica no próprio País começará pela condução da tocha, e continuará nos Jogos Paralímpicos, nos quais vai correr os 5.000 metros e 1.500 metros. "Será uma emoção diferente de todas que já vivenciei até hoje. Corri em várias pistas pelo mundo, e a gente acaba se acostumando. É uma oportunidade que todo atleta sonha, é o símbolo do maior evento esportivo. São só 200 metros, para viver com intensidade".
Ele salienta que competir no quintal de casa é uma motivação a mais, e vê a passagem da tocha como uma oportunidade única para as cidades. "É um símbolo acompanhado no mundo todo, e que deve trazer alegria para a população brasileira, que passa por momentos difíceis. Acredito que o Brasil vai sair dessa, mas os Jogos não têm nada a ver com o momento político que vivemos. Pelo contrário, vai deixar um legado", considera.
SONHOS DE INFÂNCIA
As ruas de Limeira serão caminho para a busca do sonho olímpico nas águas. O nadador Guilherme Guido conduzirá a tocha como responsável pelo 8º melhor tempo do mundo nos 100 metros costas, em competição na qual brigará pela final, no Rio. Para ele, a honra de conduzir a tocha remete às primeiras braçadas, ainda na infância.
"Desde criança, quando comecei na natação, sonhava em participar das Olimpíadas. O sonho se concretizou em 2008, quando me classifiquei para os Jogos de Pequim, mas não tive a oportunidade nem de chegar perto de um símbolo olímpico como esse. Hoje tenho essa oportunidade, que ficará para a minha história, e vou guardá-la com muito carinho. Tanto a lembrança quanto a tocha física, para a qual já separei no meu quarto de medalhas o seu lugar! Carregar a tocha pra mim será mais do que um sonho, significa poder incentivar as crianças de Limeira à prática do esporte, o que tento desde o lançamento do meu campeonato Guilherme Guido no ano passado. Acredito que mais importante do que escrever uma história é deixar o meu legado. Estou realmente muito feliz em poder devolver à cidade de Limeira tudo que me foi fornecido", diz o atleta.
A tocha também será guiada por quem não chegou às disputas profissionais, mas nutriu esse sonho. Aos 35 anos, o assistente administrativo Eduardo Ferreira dos Santos deve iniciar o revezamento, numa chance desejada há pelo menos duas décadas. Ele, que se inscreveu em todos os canais possíveis para participar da condução, teve a história selecionada por um dos patrocinadores. "Em 1996, o Rio era candidato para as Olimpíadas de 2004. Naquele ano, praticava judô, e acompanhei os Jogos pela TV. A modalidade não deu muito certo e parti para o atletismo, tendo em vista chegar às Olimpíadas dali 8 anos. No fim, nem o Rio levou e nem eu, mas continuei praticando corrida. O mais perto que cheguei das Olimpíadas foi com os ingressos para os Jogos, mas queria essa chance de estar mais próximo, em sonho que não atingi como atleta", descreve.
Para ele, o esporte é mágico. "Costumo dizer que infeliz daquele que não sabe o que o esporte proporciona. Pois as várias modalidades são diferentes, mas iguais ao mesmo tempo. Todas elas têm um momento ímpar, o valor de cada segundo, a sensação sublime. Mesmo para um atleta amador a condução da tocha será um momento único, inigualável", define.



Foto: JB Anthero
Fumaça: "É como se eu tivesse sido chamado para a seleção brasileira"

Foto: JB Anthero
Odair: "Será uma emoção diferente de todas que já vivenciei até hoje"



sexta-feira, 24 de junho de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Tão fera quanto bela, Ariane contará a sua saga em Limeira

Nº 1 do triathlon de longa distância no Brasil é trazida pelo nadador limeirense Diego Prado

Daíza Lacerda

Não se engane com os olhos e cabelos claros e riso fácil. Por trás do rosto bonito da triatleta Ariane Monticeli está uma competidora que não larga o osso nem mesmo nas adversidades das provas de longa distância que enfrenta defendendo o Brasil. Atletas do Esporte Clube Pinheiros (ECP), a campeã do Ironman (IM) Florianópolis 2015 é trazida a Limeira pelo nadador limeirense Diego Prado, que organiza palestra e treino que ocorrem amanhã e domingo. O convite é feito pela própria atleta em sua rede social: https://www.instagram.com/p/BHAPJfwEigE/.
Em meio às quatro sessões diárias de treino na preparação para o IM Zurique, onde buscará, dia 24 de julho, pontos para a vaga no mundial em Kona, Ariane falou à Gazeta sobre as dores, alegrias e desafios do esporte. Sua rotina é buscar o limite diariamente, nada menos do que será exigido nas provas de 3.800 metros de natação, 180 km de bike e 42 km de corrida. Neste ano, devido a um problema mecânico, não foi possível manter o título conquistado em 2015, mas o foco é garantir a vaga e fazer uma boa prova no mundial, em outubro, chance também comprometida no ano passado devido a uma lesão. Mesmo andando, completou a prova.
Popular principalmente nas redes sociais, ela diz que não se sente pressionada, apesar do estresse em fazer outro IM em tão pouco tempo (a prova em Floripa foi no final de maio). "Gosto de competir. Não fico nervosa antes, ou na largada, mas me mantenho concentrada. Depois de passar a linha de chegada, aí sim, dói tudo. São 9 horas no limite, e treino para aumentar a zona de sofrimento", conta. As provas chegam a ser "tranquilas" se comparadas à preparação, um verdadeiro massacre diário com natação quase todos os dias, pedal forte e dezenas de quilômetros a cumprir na corrida. Ritmo que ela manterá mesmo com a palestra e treino em Limeira neste fim de semana, cumprindo a planilha antes de vir e depois que voltar a São Paulo.
O PODER DO QUERER
Amanhã será uma das poucas oportunidades dos adeptos do triathlon de acompanhá-la, já que ela vai restringir a agenda de palestras para focar nos treinos, apesar de inúmeros pedidos de vários Estados. Além da pauleira do dia a dia, onde cumpre agenda com equipe de treinadores, preparadores físicos e nutricionistas, entre outros profissionais, Ariane deve expor aquilo que a move, muito além dos músculos. "Às vezes as pessoas reclamam demais, perdem energia. Quando estou muito desgastada nos treinos, sem conseguir responder, meu técnico me lembra que eu posso até não conseguir, mas eu tenho que querer. Aprendo todo dia que a intenção de querer já é um estímulo para as pessoas, nas competições e na vida"
Entre 2008 e 2012, Ariane conciliou as competições como profissional e o emprego de comissária de bordo, até se dedicar exclusivamente ao triathlon. Antes de se tornar referência no esporte, recebeu a confiança de patrocinadores, o que avalia que está em falta no País que sediará as Olímpiadas. "Muitos só querem investir quando o atleta está dando resultado. Falta uma pesquisa, uma análise do potencial de muito atleta. Nem sempre o resultado é imediato", considera.
Cercada por fãs quando está nas ruas em Florianópolis, a reciprocidade de Ariane com os admiradores lhe rendeu até um perfil de memes no Instagram, o que ela acha engraçado, desde que as postagens não sejam agressivas a ninguém. "É um retorno de quem sou como atleta e como pessoa".
Ela, que faz a própria prova sem analisar estratégias das concorrentes em meio às inúmeras variáveis de cada prova, ressalta a importância da vontade, disciplina e organização, um recado que fica a todos os (as) aspirantes a Ironman. "Se você colocar o objetivo na cabeça, vai conciliar de alguma forma, a família e treinos começando de madrugada. Já vi mãe de cinco filhos fazer o IM. A vontade é meio caminho andado". Palavra de campeã.



Além de palestra, treino de bike e corrida 

A palestra de Ariane acontece no sábado à tarde, no Shopping Nações. No domingo, haverá treino de 60 km de bike na Rodovia dos Bandeirantes, além de 8 km de corrida. Informações e inscrições pelo (19) 3445-4620 e trisportsperformance@gmail.com. (DL)


domingo, 8 de maio de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Pioneiro, Limeira Clube completa 100 anos

Polo recreativo sobrevive à época áurea dos bailes que movimentavam a cidade

Daíza Lacerda

Em 1916, os atrativos de Limeira se limitavam às praças. Antecedendo a época em que os bailes colocariam a sociedade limeirense para dançar, o Limeira Clube nasceu da união de cinco amigos que talvez não imaginassem que o polo recreativo e dançante que planejavam atravessaria gerações.
"Além dos carnavais inesquecíveis, foram inúmeros bailes e shows com grandes artistas, como Roberto Carlos, Elizeth Cardoso e Altemar Dutra. O clube ainda foi sede de reuniões rotárias. O Rotary Club Centro praticamente foi fundado conosco, em 1939". A recordação é de Antonio Carlos Câmara Leite. Aos 74 anos, a história de vida do atual presidente do conselho deliberativo se mistura à do clube. Seu avô, Rodolpho Forster Filho, consta como um dos primeiros associados no livro que registra a ata de fundação do clube, em 9 de maio de 1916.
VELHA E NOVA CASA
Presidida por Cyro Scartezini, a primeira diretoria foi formada também por Francisco Bernardino de Oliveira, Carlos Borges Teixeira, Nestor José Rodrigues e Joaquim de Barros Cotrim, os fundadores. Hoje, sob a gestão do atual presidente Antonio Celso Scandolera, o clube mantém a estrutura solidificada na década de 1960, quando as quadras começaram a ser construídas no terreno adquirido duas décadas antes.
A primeira sede foi em imóvel onde atualmente está o edifício São José, na Rua Alferes Franco, no Centro. Na época, o local era cuidado pelo major José Levy Sobrinho. Conhecido como clube Fênix, era o que o município tinha de mais parecido com um local recreativo. "Foi feito um acordo para pagamento mensal de 30 mil réis à Santa Casa, como uma espécie de aluguel. A área atual só foi comprada em 1940, de Mário de Souza Queiroz, quando Raul Machado Gomes presidia o clube. Foi aproveitada a área da fazenda e a casa que existia", conta Câmara Leite. As novas construções partiram de 1950, passando por reforma em 1960.
A primeira piscina era uma adaptação do lavador de café existente na fazenda, numa época em que não existia nada no entorno. A movimentada avenida chegaria muito depois do clube, que foi testemunha de tempos em que o município não tinha tanta estrutura, como no abastecimento. "Aproveitamos um poço artesiano para encher a piscina. Era década de 50, e a cidade passava dificuldades com a falta d'água. Muitas pessoas vinham buscar água aqui, com garrafões e até caminhão tanque", rememora. Até hoje a piscina que sedia campeonatos é cheia pelo poço.
NOVOS TEMPOS
Os tempos áureos dos bailes foram nas décadas de 60 e 70, em época que deu origem a muitos casamentos, como garante o conselheiro. Mas a tradição foi se perdendo, assim como a própria cultura de pular carnaval. Hoje, o forte são as equipes esportivas, como as de tênis de campo e natação. "Agora, a principal motivação são as práticas esportivas e eventos sociais, além da nova academia", lista.
Com o tempo, a concorrência chegou, também em reflexo do crescimento da cidade. Ele reconhece que houve fase de defasagem, principalmente de jovens, mas que sempre houve bom relacionamento com outros clubes. Credita a longevidade do clube à dedicação de associados e diretores, principalmente nas dificuldades, que não foram poucas, como ressalta. "Também somos sujeitos à alternância da economia, e temos custos muito altos, a exemplo da energia elétrica", exemplifica.
Para comemorar os 100 anos, o clube organiza um baile, que acontece no próximo sábado, dia 14. Os convites são vendidos a R$ 40 para sócios e R$ 50 para não sócios, sendo que detalhes do evento podem ser obtidos pelo 3404-6565. "É uma comemoração importante. Afinal, não estaremos aqui para celebrar outro centenário", considera, aos risos, o veterano.

Fotos: JB Anthero/Gazeta de Limeira/Reprodução


Antonio Carlos Câmara Leite e o poço que ainda
abastece a piscina, e também garantia água a moradores
Imóvel na rua Alferes Franco foi a primeira
sede, com pagamento de aluguel à Santa Casa
Clube celebra a tradição e se reinventa para
nova geração, tendo os esportes como forte
Publicado na Gazeta de Limeira.
segunda-feira, 25 de abril de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Preparação de idosos a todo vapor para disputas do Jori

Atletas de Limeira participarão de diversas modalidades, como dança e atletismo

Daíza Lacerda

A busca é por medalhas, mas eles já ganham em disposição. Engana-se quem pensa que têm tempo sobrando. Eles não têm tempo a perder. E foi na correria que a enfermeira aposentada Lourdes de Jesus Souza, de 60 anos, falou das suas corridinhas, que a levarão pela primeira vez à disputa de medalhas dos Jogos Regionais do Idoso, que acontecem em maio, em Americana. Com uma família de 15 netos e um casal de bisnetos, para ela não há dificuldades em conciliar as atividades do lar, a família e os treinos. "Correr é tudo. É muita emoção. Canseira às vezes dá, mas é só dar uma paradinha. Mas na primeira oportunidade a gente estreita o cabelo de novo", descreve a atleta, que mal terminou a entrevista e saiu correndo para a próxima parada, o treino de vôlei.
Também com 60 anos de idade, o aposentado Clóvis Gama de Souza só observava quem corria, há cerca de dois anos. A esperança de se livrar dos quilinhos a mais foi o principal incentivo. "Via as pessoas correndo e se dando bem. Entrei nessa e me dei bem também. Passei dos 77 para os 63 quilos e não paro mais", diz ele, que corre três vezes por dia. O atleta é só elogios para a modalidade. "Correr tira o estresse e o pensamento ruim. Mexe com tudo, com o corpo e a cabeça. Algumas dorzinhas sempre temos, mas o saldo é muito bom".
Professora de educação física e treinadora deles e de outros dois idosos que participarão dos jogos, Marly Inácio de Oliveira salienta que, para competir nesta idade, é preciso já ter algum preparo anterior. Porém, justamente na idade em que aparecem problemas crônicos, os praticantes são exemplos do resultado do esporte a favor da saúde. "Para eles, é também um lazer. Fazem porque gostam", ressalta.
Neste ano, o time limeirense contará também com José Carlos da Silva, o Fumaça, que retorna às pistas após um ano afastado das competições devido a uma inflamação no nervo ciático. "Estou treinando pouco, mas bem, pois só fui liberado em janeiro. Pretendo garantir a medalha, mas a disputa é difícil. Quero fazer os 1.000 metros abaixo de cinco minutos", considera. Apenas os três primeiros são premiados, sendo que dois são classificados para o estadual.
SAÚDE E ALEGRIA
A idade não reduz a dificuldade da disputa. E é esperando concorrentes fortes que a nadadora Ayde Gazotto, de 67 anos, fará a sua estreia nos jogos. Com cinco anos de braçadas que renderam 125 medalhas e quatro troféus top 5 do ano, ela treina ao menos 2.000 metros por dia. Mais do que os reflexos na saúde, ela destaca o convívio. "Tenho muito mais disposição e também fazemos muitas amizades competindo". Mas reconhece que o páreo não será fácil. "Vamos tentar a medalha, mas enfrentaremos os melhores de cada cidade, gente que já competiu até no exterior, que nada desde criança", considera.
Mais do que esporte, a arte será aliada do grupo que disputará com coreografia. A preparação corporal começou no ano passado, em ciclo com trabalho das capacidades físicas. "Vida - Jogo de encaixe" é o tema trabalhado por meio da dança, com 12 participantes entre 60 e 85 anos. Nos movimentos, a reflexão do contexto da vida e potencialidades do idoso.
O casal Neyde Amaral Beduschi, de 79 anos, e Jonathas Beduschi, de 85, atestam os benefícios da atividade. Eles, que já praticavam dança de salão, só veem vantagens na participação. "Nos sentimos maravilhados, felizes, sem contar a amizade com o grupo. É uma alegria tanta gente diferente formando uma só família".


Delegação limeirense reunirá ao menos 100 atletas

O entusiasmo dos competidores vai longe, mas é preciso saber se o corpo, de fato, aguenta a exigência, já que algumas modalidades são mais intensas, como o atletismo. Por isso, todos passam por uma avaliação médica para serem liberados para as provas, como explica Glaucia Perrielo, assessora de esporte e lazer da Secretaria de Esportes.
A estimativa é levar ao menos 100 atletas para os jogos, que ocorrem de 11 a 15 de maio, em Americana. Embora haja representantes para todas as modalidades, oscila a participação na faixa etária, como a categoria acima de 70 anos. Serão 14 modalidades disputadas: atletismo, bocha, buraco, coreografia, damas, dança de salão, dominó, malha, natação, tênis, tênis de mesa, truco, voleibol adaptado e xadrez. (Daíza Lacerda)



Publicado na Gazeta de Limeira.



domingo, 24 de abril de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Integração entre ensino e esporte projeta atletas em potencial

Adesão às práticas esportivas por meio do ensino integral rendem resultados positivos

Daíza Lacerda

Numa época em que crianças brincando na rua tornou-se raridade, e que os eletrônicos despertam mais interesse do que se movimentar e suar, a incursão do esporte na rotina de crianças da rede municipal de ensino tem ido além das expectativas.
Se, por um lado, crianças não conheciam brincadeiras clássicas da infância de outras gerações, como pega-pega e esconde-esconde, do outro, a oportunidade aflora talentos promissores. "Já conseguimos identificar potencial em alguns grupos que, se continuarem nesse caminho, podem se tornar atletas profissionais", conta o professor de educação física George Luiz Cardoso, que orienta turmas do ensino integral na pista da ALA, no Jardim Piratininga.
Ele explica que, quando iniciaram as atividades voltadas ao atletismo no ano passado, as crianças não tinham base motora e não conheciam as brincadeiras populares. Mas já são observados avanços como melhoria na força, resistência e flexibilidade nos participantes, que têm entre 6 e 10 anos.
Na pista, elas se espalham em práticas que vão desde a corrida ao slackline, passando pelo salto e arremesso. "O atletismo é a base de todos os esportes, e sempre tem algo que atrai a criança. Uma pode não gostar da corrida, mas se identificar no arremesso", exemplifica.
Mais do que o auxílio no desenvolvimento psicomotor e intelecto, a pluralidade de opções visa evitar traumas sejam carregados até a idade adulta. "Se a criança tem uma experiência ruim, ela não vai querer praticar, e vai passar a fugir disso. Por isso é importante deixar que ela escolha o que mais gosta, sem imposição, como alguns pais fazem", alerta.
DIVERSÃO E APRENDIZADO
No Centro Comunitário do Jardim Nossa Senhora do Amparo, a euforia é grande para entrar na piscina, mas a aula não é brincadeira. "Mais do que diversão, é um aprendizado", destaca a professora de natação, Flávia Girardello. A experiência que a criançada não teria se não fosse a integração da educação com outras áreas também traz destaques na piscina, com a participação em festivais. "Vemos o resultado e também a motivação. Além de desenvolver as habilidades motoras, há reflexos como melhoria nos índices de alfabetização". Diariamente são 12 grupos, com crianças do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos e de escolas como Maria Aparecida de Luca Moore e Aracy Guimarães.
As atividades vão além da pista e piscinas, ocupando outros centros com modalidades como judô, kung fu, ginástica rítmica e basquete, como explica Glaucia Perrielo, assessora de esporte e lazer da Secretaria de Esportes. Cada turma tem duas atividades por semana, além das oficinas de cultura.
O professor George lembra que o fato das crianças serem provenientes de áreas mais vulneráveis não limita o destaque que podem ter numa eventual carreira esportiva. Em geral, na pista, treinam descalças, mesmo com campanha em curso para arrecadação de tênis. "São nessas regiões que encontramos mais potencial. Já vimos crianças de escolas particulares com muito menos habilidade, por falta de estímulo. Mas a carência não impede o acesso ao esporte. No atletismo, não dependemos de equipamentos. O principal é a disposição".

Noção de cidadania e uso dos espaços públicos

O acesso às práticas não é privilégio só de quem está na escola. Trata-se de opção disponível para quem quiser. A união do útil ao agradável se deu com um esquema de organização de horários e logística, que tornou espaços públicos de esporte e lazer extensões da escola, como explica a secretária de Educação, Adriana Ijano Motta.
A integração é prevista em portaria de dezembro de 2014. Com as opções disponíveis, a união da pasta com secretaria de Esportes, Cultura e Ceprosom levou à organização para que as crianças vivenciassem as atividades nos centros. "São crianças que estão na idade de experimentar. Essa união possibilita diversas vivências, além da possibilidade da criança de procurar o serviço na modalidade que mais lhe agrada", explica, exemplificando com alunos que deram continuidade às práticas nos centros comunitários independentemente da escola. "A criança tem de ter a noção que é cidadã, que pode e deve usufruir do patrimônio da cidade".
Outra vantagem listada por ela é o fato desses equipamentos contarem com professores da área do esporte com olhar mais detido sobre detalhes como postura, por exemplo, podendo identificar eventuais problemas mais facilmente.
São 31 escolas envolvidas, sendo cinco do período integral e o restante com atividades descentralizadas. O resultado está nas provas. "Nos resultados das avaliações prévias do Saresp, as escolas de período integral subiram seu desempenho. Embora o grande mote seja a melhora no desenvolvimento acadêmico, elas mostram avanços na possibilidade de convivência e fortalecimento de vínculos". (Daíza Lacerda)


Publicado na Gazeta de Limeira.


 





sábado, 9 de abril de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Fumaça será um dos condutores da tocha olímpica em Limeira

Veterano do atletismo vê oportunidade como inspiração para os mais jovens

Daíza Lacerda

Uma das patrocinadoras do revezamento da tocha olímpica Rio 2016, a Coca-Cola confirmou que José Carlos da Silva, o Fumaça, será um dos condutores em Limeira da tocha olímpica dos Jogos Olímpicos Rio 2016. O principal símbolo dos Jogos chega ao município dia 20 de julho.
Além de Fumaça, foi confirmada também a participação de Eduardo Ferreira dos Santos, de 33 anos, que treina atletismo desde 1996. Por enquanto, não há outras confirmações. Conforme a assessoria da Coca-Cola, alguns nomes ainda estão em fase de aprovação.
O revezamento começa em Olímpia, na Grécia, com a cerimônia de acendimento da tocha dia 21, 100 dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 . De lá, a chama olímpica viaja até o Brasil, onde começa a trilhar o seu caminho rumo ao Rio de Janeiro, sua parada final. Os Jogos acontecem entre 5 e 21 de agosto.
A menos de um mês do início da viagem da tocha no País, que começa em 3 de maio em Brasília-DF, a Prefeitura de Limeira ainda não informou detalhes da passagem, como locais, horários e esquemas de segurança. Campinas, que receberá a tocha no mesmo dia, já divulgou os principais pontos da rota. Na data, a ordem das cidades será Rio Claro, Limeira, Americana e Campinas.
FUMAÇA
Aos 74 anos, Fumaça é responsável pela formação de gerações de atletas. Ele falou da emoção de participar do momento mais marcante do esporte mundial. "É motivo de muita honra e satisfação. Poder carregar a tocha é como uma premiação de alto nível, um troféu. Agradeço a todos os atletas de Limeira que apoiaram meu nome para este momento".
A expectativa do atleta, que passou o ano passado afastado das competições devido aos cuidados com a saúde, é estar bem no dia do percurso. "Quero representar a cidade à altura. Não trabalhamos pensando nisso, mas ajuda a ter mais ânimo para continuar batalhando. Nunca esperei. Deus me abençoou bastante".
Fumaça começou no esporte aos 18 anos, no Tiro de Guerra. Jogava futebol, mas logo enveredou pelas pistas, como testemunha da construção da área dedicada ao atletismo no município, a pista anexa ao Tiro, na qual atuaria nas décadas seguintes. Determinado a participar dos Jogos Regionais do Idoso este ano, ele vê a oportunidade olímpica como inspiração para os mais novos. "É um incentivo, e mostra que, trabalhando, chegamos lá. Ninguém nasce no topo. Agradeço a cidade e todos que me ajudaram".
Outros condutores cotados são o nadador Guilherme Guido e o atleta paralímpico Odair dos Santos, que ainda não foram confirmados. Nesta semana, reportagem da Folha de São Paulo abordou a dificuldade de alguns atletas olímpicos em participar do trajeto, devido a incompatibilidade dos termos de participação com contratos de patrocínio.
Foto: JB Anthero/Arquivo Gazeta de Limeira
Fumaça tem mais de meio século de história no atletismo limeirense

Publicado na Gazeta de Limeira.

quinta-feira, 10 de março de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Vocação para lazer será explorada ao lado do Limeirão

Estrutura mais voltada ao esporte será viabilizada a partir de contrapartida

Daíza Lacerda

Aos poucos, adeptos dos esportes começaram a tomar conta do entorno do estádio Major José Levy Sobrinho, o Limeirão. A adesão de caminhantes, por exemplo, é tamanha, que a divisão de espaço entre pedestres e veículos resulta em problemas, como acidentes. Mas a expectativa é que a questão seja solucionada com o início da revitalização do entorno do estádio, que receberá equipamentos de esporte e lazer por meio de contrapartida.
O projeto foi apresentado ontem pelo prefeito Paulo Hadich e o secretário de Urbanismo, Alex Marques Rosa, sendo que as obras tiveram início nesta semana. Tanto este projeto quanto o bosque que será feito no antigo zoológico são contrapartidas do mesmo empreendimento que teve aprovada a primeira fase de um loteamento na rodovia Limeira-Iracemápolis.
No lado do estádio em que já existem alguns equipamentos está previsto o fechamento do acesso de carros. Será feita uma pista de caminhadas, raias de 100 metros e uma ciclovia em todo o entorno. Brinquedos, academia ao ar livre, banco de areia para slackline, mini campo de futebol e de basquete serão algumas das opções. Banheiro e bar do estádio também devem ficar abertos para o público.
Hadich informou que o objetivo inicial era a ação no bosque, mas a chuva dificultou os trabalhos. Além dos equipamentos previstos, outras atividades podem atrair mais pessoas para o local. Um dos exemplos é a feira do produtor rural. A projeção é que as mudanças sejam concluídas em até 60 dias.
CONTRAPARTIDAS
As intervenções nos dois locais saíram de um banco de projetos existente na Secretaria de Urbanismo, em iniciativas que aguardavam a verba e a vez. Neste caso, vão sair do papel pela impossibilidade de mensurar, no momento, o impacto do empreendimento na Limeira-Iracemápolis, como explicou Alex. "Sabemos que a prefeitura terá custos, terá que viabilizar transporte e educação, por exemplo. Mas ainda não conhecemos a demanda e o público. Por isso foi negociada a ação compensatória em outro ponto, mas de uso comum", explica.
A escolha é consenso entre poder público e empreendedor. Apesar de depender de prazos de aprovações, todas as ações são listadas em termos de compromisso. Outros exemplos dessa iniciativa é a reforma do centro comunitário do Parque Hipólito, feito pela construtora que terá empreendimento imobiliário na avenida Dr. Lauro Corrêa da Silva. As intervenções iniciadas nesta semana na via Guilherme Dibbern também são acordo que parte de projeto aprovado na região.
Alex salienta que as medidas são previstas no Plano Diretor. São mitigadoras quando servem para equilibrar o impacto causado em determinada região, como a duplicação de uma via. E compensatória quando essa contrapartida não necessariamente ocorre na mesma área e comunidade. A lei prevê também prevê a opção de depósitos em dinheiro para os fundos de urbanização e habitação.




Foto: Mário Roberto/Gazeta de Limeira
Nova concepção do entorno do estádio privilegiará pedestres com foco no esporte e lazer

Publicado na Gazeta de Limeira.
domingo, 7 de fevereiro de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Campeonato municipal de corridas inicia com competições de atletismo

Provas são para categorias do infantil ao veterano, com premiação para os primeiros

Daíza Lacerda

Os adeptos da corrida em Limeira já podem programar os treinos para as disputas do 23º Campeonato Municipal de Corrida de Rua nos Bairros. O calendário começa no próximo domingo, com o tradicional torneio em comemoração ao Dia do Atleta, cujas provas serão na pista do Jardim Piratininga. As inscrições devem ser feitas com antecedência.
Para quem não emendou a folga das festas de final de ano com o carnaval, os treinos já começaram, como lembra José Carlos da Silva, o Fumaça, coordenador da Associação Limeirense de Atletismo (ALA), que organiza as corridas com apoio da Secretaria de Esporte e Lazer. De segunda a sexta-feira, a pista é ponto de encontro para os treinos de base, que têm início às 6h30. "É uma iniciação, para fortalecer para o restante do ano", salienta. A agenda inclui circuito de exercícios, rodagem e percursos no asfalto e na terra, além de corrida aos sábados à tarde no Horto Florestal. A ALA oferece aulas gratuitas para adultos e crianças a partir dos 8 anos, nos períodos da manhã e tarde, em horários a serem consultados no local.
As provas começam assim que o carnaval termina, com diversas modalidades no dia 14, na celebração do Dia do Atleta. As provas estão divididas nas categorias infantil (até 15 anos), juvenil (16 e 17 anos), adulto (18 aos 39 anos), veterano 1 (40 a 50 anos) e veterano 2 (51 anos ou mais).
As modalidades disputadas pelo infantil serão 50 metros rasos, 600 metros rasos e salto em distância masculino e feminino. Já a categoria juvenil disputará os 200 metros rasos, 1.000 metros rasos e salto em distância masculino e feminino. A categoria adulto competirá nos 200 metros rasos e 3.000 metros rasos no masculino,  200 e 1.500 metros rasos no feminino e arremesso de peso masculino e feminino. Veterano 1 e 2 disputarão os 200 metros rasos, 1.500 metros rasos e arremesso de peso masculino e feminino.
Para o secretário de Esportes, José Luiz Rodrigues, o evento é importante para a conscientização dos limeirenses para os cuidados com a saúde.“A corrida lembra as pessoas da importância da prática de atividades físicas. Além disso, é um evento democrático, em que toda a população pode participar, desde crianças até os atletas de terceira idade”, disse.
Fumaça ressalta que a pista do Jardim Piratininga é adaptada, ou seja, não atende aos padrões oficiais. A praça de esportes conta com um circuito de cerca de 400 metros, com subida e descida, além de outro plano de 200 metros, em ambiente arborizado.
O evento começará às 7h30, e as inscrições, gratuitas, devem ser feitas com antecedência pelo e-mail jcrs67@hotmail.com, telefone (19) 3039-1760 ou diretamente na pista (Rua Capitão Antonio Esteves dos Santos, s/nº, Jardim Piratininga, ao lado da Câmara Municipal). Não serão feitas inscrições no dia do evento.
Serão premiados os 3 primeiros colocados em cada prova e sexo. As três melhores equipes receberão troféu.
ETAPAS NOS BAIRROS
A associação também já definiu o calendário anual de corridas, que tradicionalmente acontece nos bairros de Limeira. A primeira etapa será dia 28 de fevereiro, no Horto Florestal. A segunda, dia 10 de abril com largada no Caic, no Parque Nossa Senhora das Dores. A terceira corrida acontece em junho, dia 26, no Jardim Ernesto Kühl.
A quarta etapa será em 28 de agosto, com largada no Centro Comunitário do Cecap. Em setembro, a corrida é em celebração ao aniversário de Limeira, dia 15, no Parque Cidade. Em outubro acontece a corrida José Carlos da Silva - Fumaça, em percurso a ser definido. Em duas décadas, o Parque Hipólito sediou a disputa, que teve o ponto de largada transferido para o Parque Cidade no ano passado, passando por vias da região, como o viaduto Prefeito Paulo D'Andréa. O encerramento, com a sexta etapa, acontece em 6 de novembro, na pista do Jardim Piratininga. Mais informações na página http://www.facebook.com/ala.limeira.
domingo, 6 de setembro de 2015 | By: Daíza de Carvalho

Ouro no Parapan, Odair dos Santos mira Paralimpíadas

Paratleta foi desclassificados no 5.000 m, mas garantiu o pódio nos 1.500 metros

Daíza Lacerda

Os tênis são novos, mas as cicatrizes nos joelhos e canelas denunciam que a trajetória até ali não foi nada fácil. Na pista de atletismo do Sesi, em Limeira, um dos locais que recebem as velozes passadas, o paratleta Odair dos Santos fala do caminho que o levou ao lugar mais alto do pódio nos Jogos Parapanamericanos de Toronto, no último mês. Cego, o velocista conquistou, com o guia Carlos Antonio dos Santos, a medalha de ouro dos 1.500 metros.
Conquistou também o recorde nos 5.000 metros, mas a façanha não foi validada devido à equipe não ter informado no prazo pré-determinado a troca de guias para a prova. Mas, para ele, valeu. "Havia dúvida se eu competiria, por estar retornando de duas cirurgias. E a desclassificação aumentou ainda mais a responsabilidade de conquistar a medalha de ouro, pois os 1.500 metros eram uma prova para a qual eu não estava treinando", contou o paratleta.
Foi o seu quarto Parapan, garantindo ouro em todas. Mas o último é considerado por ele e seu guia o mais difícil da trajetória da dupla, que une forças há cinco anos. "Só tive certeza do ouro mesmo nos últimos metros. Em termos de decisão, foi a prova mais sofrida", conta Carlos.
A sintonia da dupla tem de ser perfeita, sendo que, além de passar confiança, o guia nunca pode chegar à frente, e tem de manter um ritmo que o paratleta responda. E foi essa reação que teve de Odair na reta final, fechando a volta em 4:12:16 e deixando um canadense no segundo lugar, com 4:12:65. O limeirense ainda detém o recorde americano na prova, com tempo de 4:03:66, conquistado em Londres, em 2012.
VIDA DE ATLETA
O foco agora é garantir marcas para defender a cidade e o país nas Paralimpíadas do Rio, no próximo ano. Para isso, tem até maio de 2016 para conseguir a marca de tempo em provas oficiais que garanta a sua vaga. Até lá, mantém a rotina de treinos pelo Centro de Treinamento Limeira Paralímpico (CTLP) com Fábio Breda, que consiste em sessões de tiros de manhã e de tarde, além do trabalho de condicionamento.
Já as lesões, têm de conviver com elas. Antes do Parapan, Odair se recuperava da cirurgia no tendão de Aquiles, que exige pé no freio, mas não estagnação. Sem poder correr, são feitas outras atividades sem impacto, como natação.
A alimentação também dita muito do desempenho dos atletas, mas eles afirmam não abrir mão de algumas regalias. "Me privo de muitas coisas, mas de chocolate não tem jeito!", entrega o velocista. Eles têm determinada quantidade de calorias para consumir no dia, mas confessam que às vezes extrapolam. O índice de gordura não passa dos 5%, quando o dos não atletas pode ser acima de 20%. "Temos de ter alguma gordura acumulada, para não queimar o músculo", justifica Carlos.
DUAS VEZES BRASIL
Pela primeira vez, um atleta brasileiro representou o País no Pan e Parapan. Carlos também disputou os 1.500 na competição convencional, ficando em 9º, com 3:44:37, atrás de outro brasileiro. Também com histórico de lesões, achou que poderia ter feito melhor. A diferença do primeiro colocado foi de cerca de três segundos, uma eternidade quando se fala de atletismo.
E foi justamente a atuação no esporte adaptado que levou o guia às competições oficiais convencionais, por ter de treinar tanto quanto ou até mais do que o paratleta. Afinal, se Odair disparar, ele tem de estar preparado para acompanhar.
Ambos destacam o apoio do Comitê Paralímpico para que esses resultados sejam possíveis, diferentemente do desporto convencional. Também lembram e agradecem um parceiro antigo, a Associação de Mulheres Unimedianas (Amul). "Foi uma das primeiras que nos apoiou e nos apoia até hoje", reforça Odair.
Ainda assim, ambos estão em busca de patrocínio para aumentar o número de conquistas. O contato pode ser feito pelos e-mails dinho1500@hotmail.com e atletabira@hotmail.com.
Eles consideram que promessas precisam de um olhar mais atento e de investimento. "Estou no meio paralímpico há 12 anos, e nunca recebi apoio da prefeitura. Mas também os atletas precisam buscar as oportunidades", conta Odair.
É um caminho sem ilusões, como atesta Carlos. "No começo é difícil mesmo. Mas depois fica mais difícil ainda, para manter e melhorar o nível", relata Carlos. Mas há recompensas. "Buscar a fruta no pé é mais difícil, mas o sabor é outro", concordam.




domingo, 25 de maio de 2014 | By: Daíza de Carvalho

Ironman: desafio a peso de ferro para limeirenses

Atletas do município nadam, pedalam e correm hoje em competição internacional

Daíza Lacerda

Nadar a distância da Praça Toledo Barros até o meio da Avenida Pedro Elias, na Vista Alegre. Pedalar o equivalente à viagem de Limeira a Ribeirão Preto. Correr a distância de Limeira a Hortolândia. Um em seguida do outro. Cada uma dessas etapas quilométricas começam a ser encaradas por ao menos 6 limeirenses hoje, a partir das 7h, mas no mar e estradas de Florianópolis. Parte deles compete pela primeira vez o Ironman, prova de triathlon mundial que desafia os participantes a nadarem 3,8 km em águas abertas, pedalar 180 km de estrada e correr mais 42 km. Eles não terão o dia todo para isso, mas mais da metade: o limite é de 17 horas para a conclusão.
A maratona começa pela inscrição. São cerca de duas mil, disputadas por atletas de ao menos 30 países, e que se esgotaram em 15 minutos este ano. Quem consegue garantir o lugar, tem um ano para treinar.
É o que tem feito nos últimos meses Leandro e Bruno Negrucci, de 29 e 33 anos, Rafael Campos, de 34, e Joselito Domingues, de 34. Os três primeiros estreiam no Ironman Brasil após anos se dedicando a competições menores, mas de longas distâncias, no triathlon. Domingues é "reincidente" e tenta, hoje, uma vaga para o mundial em Kona, no Havaí, que depende da classificação nas categorias por idade.
Na última semana, a dias da competição, os novatos estavam confiantes no preparo físico e psicológico, após encaixar treinos duas vezes ao dia entre a família e o trabalho. "Tem de ter a paixão pelo esporte e conciliar. Sem apoio da família, não se faz um Ironman", concordam. E por conta própria, sem respaldo profissional, também, como o de treinadores, médicos e nutricionistas, para "abastecer" a máquina adequadamente para o volume intenso de treinos.
Se a corrida é a parte mais difícil da prova, o desafio em toda a extensão é o psicológico, relatam. "Vemos muitas pessoas bastante acima do peso, ou que nunca competiram e que concluem a prova. O desafio é pessoal. Muitos acham impossível, mas com o conhecimento básico e treinamento, há tempo suficiente para terminar", comenta Domingues, praticante de triathlon há uma década.
E qual a sensação de cruzar a linha de chegada? "É muito gratificante, a realização de um sonho para quem gosta", tenta definir. E já saiu de Florianópolis pensando na próxima edição.
Na opinião dos demais, que acompanharam na torcida no ano passado, a prova pode ser considerada como um evento motivacional. "Estão juntos desde o melhor atleta à pessoa que está começando e buscando superação".
Mais do que preparar o corpo, o principal é a mente. A tentativa de passar dos próprios limites na prova, além do que foi treinado, pode dificultar bastante o caminho. Mas muito poucos param. É o que garante quem esteve lá. "No final há pessoas que andam. Terminam nem que seja se arrastando".
CELEBRAÇÃO
"O pior do Ironman é o treinamento. Alcançar a linha de chegada é a celebração de tudo que abdicamos para treinar, como o tempo com a família e os amigos". A definição é de Vicente Liguori Júnior, de 39 anos, que competiu pela primeira vez no ano passado e se prepara para a etapa de Fortaleza-CE, em 2015.
Foram anos de competição no triatlhon de longa distância "amadurecendo a ideia" até o momento de encarar o Ironman.
Se a corrida começa na inscrição, a etapa mais delicada é da maratona. "É quando ficamos com o psicológico mais abalado com tudo o que já foi exigido nas outras etapas da prova", conta. São horas em que ver alguém quase desistindo pode balançar a confiança. "Se a cabeça não estiver boa, não termina".
A densidade da prova é refletida na medalha, que é pesada. A conquista é difícil de descrever. "Só quem passa por isso para saber a sensação", diz Liguori.
O Brasil é o único país que sedia a competição na América do Sul, e as condições climáticas atraem bastante estrangeiros. Com o aumento da demanda, além do Sul, o Nordeste também passa a sediar o evento, em Fortaleza. O mundial, no Havaí, reúne os melhores das categorias de todos os países em que a prova é celebrada.
O encanto de ser um homem de ferro está perdendo um pouco do misticismo de outrora, na opinião de Liguori. "Com a evolução nos últimos anos, o conceito da prova está mudando. O volume exigido na prova assusta, mas com treino certo não tem como dar errado", diz ele, sobre não ser tarefa impossível.
Ele salienta, no entanto, a importância de não levar ao pé da letra a marca da prova. Afinal, ninguém é de ferro. "As pessoas que praticam devem ter cuidados, fazer a preparação sem se exceder. É importante treinar acompanhado. O Ironman é um extremo que nem sabemos que podemos chegar. Mas chegamos".

Leandro, Bruno, Rafael estreiam; Joselito tentará vaga para o mundial


Liguori, que disputou em 2013: a chegada é uma celebração


De Limeira ao Havaí, uma coleção de disputas

Enquanto alguns limeirenses estreiam hoje no Ironman, conquistar a medalha de ferro virou hábito para o advogado Luiz Renato Ragazzo Machado Gomes, de 67 anos. Conhecido como "Dudu", ele foi desafiado pelo filho e pelo sobrinho, em 2000, a encarar a prova. Disputou no ano seguinte, com 55 anos de idade, e não parou mais. Foram 13 edições, faltando em alguns anos devido a lesões, e quatro classificações para o mundial, em Kona.
Com a experiência, ele derruba mitos. "Todo mundo pensa que é algo fora do comum, mas não é", garante. Já para os treinos, na prática, a teoria é outra. "É preciso disciplina e força de vontade homérica. Levantar muito cedo e treinar várias vezes ao dia".
Mas as provas atuais são bastante diferentes. "Quando comecei, eram 600 competidores. Agora são 2 mil. Hoje há pontos de apoio que são verdadeiras quitandas em vários trechos. Antes, era cada um por si para a alimentação. Também havia tempo para pensar e fazer a inscrição, que ficava meses aberta. Conseguia-se fazer a reserva de hotéis pouco tempo antes da prova". A torcida é um show à parte, e organizada em caravanas com camisetas e bandeiras.
Ele avalia que os limeirenses que competem hoje estão bem preparados, inclusive Joselito Domingues, com as chances de classificação para o mundial. O porém é a grande concorrência em suas categorias etárias, condição que já é mais tranquila para o advogado. Ele começou com cerca de 10 concorrentes em sua idade, o que foi caindo até a metade com o passar dos anos.
Uma lesão no pé o impediu de competir nesta edição, e ele preferiu não participar no mundial do ano passado. Mas o retorno está nos planos. A primeira prova concluiu em 12h20, baixando uma hora no ano seguinte. Ele também endossa que a cabeça é a principal ferramenta. "Por ser uma prova longa, se não tiver bem, reflete no desempenho. O pior é o psicológico".
HAVAÍ
Para participar do mundial, a inscrição tem de ser paga na hora da premiação, na etapa nacional. Entre as dificuldades vividas no Havaí listadas por Gomes, estão o calor e terrenos, com bastante subidas. Lá, demorou uma hora a mais de sua média para completar.
Conta pontos em sua avaliação a organização da prova brasileira, padrão que não encontrou nos Estados Unidos. Devido às altíssimas temperaturas, lá não se nada com a roupa de neoprene, usada em temperaturas abaixo de 20 graus. Assim, os atletas saem da água mais cansados, explica.
Kona recebe os melhores classificados do mundo inteiro. São cerca de 1,5 mil, numa peneira mundial que pinça cerca de 50 atletas em cada prova. Em cada etapa, porém, há um leilão de vagas, cuja renda é destinada a instituições locais, conta o advogado. No Brasil, uma vaga teria sido vendida a 1.500 dólares, o equivalente ao dobro do preço da inscrição.
Se antes o importante era terminar, atualmente os atletas querem entrar para ganhar, pondera. Mas ele orienta aos aspirantes: a disputa deve ser consigo mesmo. "Cada um tem de fazer a sua prova, pensando em si. Esquecer do outro que está passando e manter o seu ritmo. Quando se chega nos 30 km da corrida, dói até o pensamento. Na bicicleta, ficamos sozinhos. A gente ri, chora, fica triste, alegre, com raiva, apático. Por isso a cabeça tem de estar boa, para fazer o que pode". (Daíza Lacerda)

Luiz Renato Gomes, o “Dudu”: mais de 10 provas e classificações para o mundial