COLUNA RELEITURA
daiza.lacerda@gazetadelimeira.com.br
O fim e os acertos
Daíza Lacerda
Ainda há quem se pergunte como um prefeito que viabilizou moradia popular, avançou em situações complicadas da assistência social e iniciou obras em vias das mais usadas no município pode perder a eleição. Ao que tudo indica, principalmente o resultado das urnas, Hadich foi traído pelo próprio temperamento, mesmo com os acertos de seu governo, um mérito que não há de se tirar de boa parte de seu secretariado. Dentro do Edifício Prada e, principalmente ao deixá-lo, faltou a humildade demonstrada por muitos de seu primeiro escalão.
Ainda que carisma não signifique gestão, quem vota em quem não lhe causa empatia? E nisso parece ter pesado o Hadich delegado, intrínseco no Hadich prefeito. O ar autoritário não fugiu à percepção popular, fazendo sombra àquilo que deu certo nos quatro anos de governo.
A identificação maior com os subordinados de Hadich foi notória, por exemplo, no sorteio das unidades do Rubi, quando o então secretário da Habitação foi mais ovacionado do que o próprio prefeito. Ainda que capitaneados pelo ex-chefe do Executivo, os ex-secretários lidavam de forma muito próxima dos principais interessados dos serviços de suas pastas, principalmente usando as redes sociais. Uma afinidade que o ex-prefeito não conseguiu criar.
Apesar do amargor do resultado das urnas, Hadich tinha motivos para ser um bom perdedor, já que iniciativas do seu governo chegaram a ser elogiadas e devem ser continuadas por parte do secretariado que sucederá a sua gestão. Além do orgulho, não lhe custava deixar o posto na cerimônia de posse e sair pela porta da frente, como tanto enfatizou que faria.
Toda cidade estará em permanente construção, e Limeira não é diferente. Também não é novidade que é obrigação de qualquer gestor entregar uma cidade melhor do que pegou. Mesmo assim, é justo reconhecer quem se esforçou para que isso de fato acontecesse, e isso foi nítido em algumas áreas como o Ceprosom, com equipes muito afinadas que atenderam moradores de rua e desencantaram o complexo reordenamento de abrigos de crianças e adolescentes; no Urbanismo, foi iniciado quase o milagre de desburocratizar processos, e a própria Habitação, que desenrolou emaranhados como o Recanto dos Pássaros e bairros irregulares, e fez um dos mais objetivos processos para selecionar os futuros moradores do Rubi.
Por outro lado, nem tudo que reluz em seu luxuoso informativo de prestação de contas é ouro. A paz ainda não reina em bairros das periferias mais vulneráveis, principalmente ao tráfico, a manutenção pública é o mínimo que se espera de uma administração, e indicadores de segurança não necessariamente garantem uma sensação geral de segurança. E sempre há de se considerar as subnotificações, pois há gente que já foi tantas vezes alvo de ladrões ou teme represálias, que não registra mais queixas, numa cultura que ainda há muito que ser trabalhada e transformada.
A parceria com a sociedade buscada e citada por Hadich em sua entrevista à Gazeta publicada em 31 de dezembro poderia perfeitamente ter sido iniciada com mais ênfase por ele. Talvez a população tivesse outro olhar se o Executivo usasse peças publicitárias para convidá-la à participação, e não exibir conquistas que, apesar de genuínas, não necessariamente traduzem um sentimento coletivo. Um questionário do usuário de transporte, por exemplo, ficou escondido, quando merecia outdoor e coletiva. O piscinão, com toda a sua importância, todos sabiam da execução. Mas ainda é urgente a mudança de postura em como lidar com o lixo para evitar alagamentos e reduzir os custos com limpeza urbana. Talvez ter se colocado um pouco mais na pele do munícipe, aquele que perde tempo esperando ônibus, que perde tempo na onda vermelha dos semáforos, que faz viagens nos postos para conseguir exames e remédios. Essa distância talvez explique porque os acertos não foram associados a Hadich, ou solenemente ignorados pelo eleitorado.
É claro que as medidas acertadas apontam para evolução, mas não são o suficiente para um sentimento de melhoria geral. Principalmente porque ainda restam calos muito incômodos, como a saúde e o transporte público, muito longes do ideal para o porte de Limeira. Um desafio que agora está nas mãos de Mário Botion e o time escalado por ele.
Publicado na Gazeta de Limeira.
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A velha (e a nova) infância
Se você também foi uma criança que cresceu sob o encanto de obras como
"ET - O Extraterrestre", vai me entender. E se também devorou os
episódios de Stranger Things na sua rotina moderna e tecnológica, te
convido à melancolia da comparação de gerações que não têm comparação.
Sim, são os "novos tempos", ganhamos e perdemos. Mas, como conservar
mais daquilo que era tão bom e escorre pelos dedos? As brincadeiras de
crianças são outras, infelizmente mais dependentes de coisas do que de
outras pessoas - esse é o fator mais triste. Os desafios se impõem
primeiro a nós, "adultos", antes de indicarmos os caminhos às crianças.
Que a verdadeira essência não se perca. Nem em nós, nem nelas.
Artigo de hoje da coluna Releitura, da Gazeta de Limeira, que fica off por um tempo, durante as férias de quem vos escreve.
COLUNA RELEITURA - 08/08/2016
A velha (e a nova) infância
Daíza Lacerda
Na semana que passou, a infância atual e a da "nossa época" foram motivo de considerações aqui na redação. O ponto de partida da discussão foi a série Stranger Things, da Netflix. Ela arremessa nós, "trintões", de volta aos saborosos anos 80 da infância, com filmes de amizades e acontecimentos extraordinários. Inevitável pensar como as produções de hoje valorizam mais os efeitos de computação gráfica do que as boas histórias, tendo no tal CGI uma muleta para arrebatar multidões aos cinemas, exagerando na dose visual e relaxando na emocional.
Apesar de também ter efeitos, a curta primeira temporada de Stranger Things resgatou o senso de companheirismo, a amizade que nasce e se fortalece genuinamente - apesar dos monstros. Os quatro amigos que transitam pela cidadezinha de bicicleta, que têm uma cabana na floresta, parecem remeter a outro mundo, distante algumas décadas que parecem milênios.
Porque parece que faz tempo que vivemos no reino das telas de alta resolução, e não das bicicletas e das reuniões no porão ou quintal, cara a cara, com a imaginação ditando os jogos, como os de tabuleiro, que exigem interação física. Vivemos na era em que o movimento só acontece quando assim dita o mundo virtual, como o Pokémon Go ou Kinect, sensor de videogame que faz o jogador dançar ou praticar algum esporte. Dentro da sala.
A nossa geração, que viveu tempos de jogar queimada ou taco na rua sem se preocupar com o tráfego intenso ou ladrões e sequestradores, cercará seus filhos de todos os cuidados que a tecnologia e segurança poderão proporcionar, na melhor das intenções. Conseguir resgatar o mínimo de liberdade que vivemos lá nos anos 80 demandará não só muita criatividade, mas escolhas que vão interferir diretamente no meio de vida, inclusive profissional.
As crianças saberão inglês antes da adolescência, ensinarão informática aos pais, vão zerar os níveis dos jogos, passar de primeira no vestibular. Mas talvez não saibam o que é ralar o joelho aprendendo a pedalar ou tropeçando no pega-pega, que não dominarão a imensidão de um bairro com a sua turma, mas espaços delimitados, por tempos delimitados, eventualmente. Talvez não consigam ter mais atenção nas pessoas do que nas telas.
Reconheço que sempre fui chegada nos aparatos eletrônicos, mas é muito chato tentar travar uma conversa com quem está mais interessado nas telas do que na gente. E isso tem virado regra entre crianças, sob "exemplo" dos adultos. O início da matéria publicada na sexta, na Gazeta, da repercussão do Pokémon Go em Limeira, reflete exatamente o que aconteceu na busca de depoimentos no parque: entrevistas entrecortadas pelo jogo, ainda que ele fosse o assunto.
De minha parte, fico feliz com a lembrança de, num aniversário, descer ao Centro de ônibus com a minha mãe, escolher meus patins no Palácio dos Brinquedos (que parecia mesmo um palácio!) e passar uma das tardes mais ansiosas da minha infância até que a aula da 2ª série acabasse, para curtir meu brinquedo novo, na rua, com a criançada. Talvez os caçadores do Pokémon jamais saibam o que é isso.
Artigo de hoje da coluna Releitura, da Gazeta de Limeira, que fica off por um tempo, durante as férias de quem vos escreve.
COLUNA RELEITURA - 08/08/2016
A velha (e a nova) infância
Daíza Lacerda
Na semana que passou, a infância atual e a da "nossa época" foram motivo de considerações aqui na redação. O ponto de partida da discussão foi a série Stranger Things, da Netflix. Ela arremessa nós, "trintões", de volta aos saborosos anos 80 da infância, com filmes de amizades e acontecimentos extraordinários. Inevitável pensar como as produções de hoje valorizam mais os efeitos de computação gráfica do que as boas histórias, tendo no tal CGI uma muleta para arrebatar multidões aos cinemas, exagerando na dose visual e relaxando na emocional.
Apesar de também ter efeitos, a curta primeira temporada de Stranger Things resgatou o senso de companheirismo, a amizade que nasce e se fortalece genuinamente - apesar dos monstros. Os quatro amigos que transitam pela cidadezinha de bicicleta, que têm uma cabana na floresta, parecem remeter a outro mundo, distante algumas décadas que parecem milênios.
Porque parece que faz tempo que vivemos no reino das telas de alta resolução, e não das bicicletas e das reuniões no porão ou quintal, cara a cara, com a imaginação ditando os jogos, como os de tabuleiro, que exigem interação física. Vivemos na era em que o movimento só acontece quando assim dita o mundo virtual, como o Pokémon Go ou Kinect, sensor de videogame que faz o jogador dançar ou praticar algum esporte. Dentro da sala.
A nossa geração, que viveu tempos de jogar queimada ou taco na rua sem se preocupar com o tráfego intenso ou ladrões e sequestradores, cercará seus filhos de todos os cuidados que a tecnologia e segurança poderão proporcionar, na melhor das intenções. Conseguir resgatar o mínimo de liberdade que vivemos lá nos anos 80 demandará não só muita criatividade, mas escolhas que vão interferir diretamente no meio de vida, inclusive profissional.
As crianças saberão inglês antes da adolescência, ensinarão informática aos pais, vão zerar os níveis dos jogos, passar de primeira no vestibular. Mas talvez não saibam o que é ralar o joelho aprendendo a pedalar ou tropeçando no pega-pega, que não dominarão a imensidão de um bairro com a sua turma, mas espaços delimitados, por tempos delimitados, eventualmente. Talvez não consigam ter mais atenção nas pessoas do que nas telas.
Reconheço que sempre fui chegada nos aparatos eletrônicos, mas é muito chato tentar travar uma conversa com quem está mais interessado nas telas do que na gente. E isso tem virado regra entre crianças, sob "exemplo" dos adultos. O início da matéria publicada na sexta, na Gazeta, da repercussão do Pokémon Go em Limeira, reflete exatamente o que aconteceu na busca de depoimentos no parque: entrevistas entrecortadas pelo jogo, ainda que ele fosse o assunto.
De minha parte, fico feliz com a lembrança de, num aniversário, descer ao Centro de ônibus com a minha mãe, escolher meus patins no Palácio dos Brinquedos (que parecia mesmo um palácio!) e passar uma das tardes mais ansiosas da minha infância até que a aula da 2ª série acabasse, para curtir meu brinquedo novo, na rua, com a criançada. Talvez os caçadores do Pokémon jamais saibam o que é isso.
O eleitor é que precisa evoluir
É sempre mais fácil reclamar dos candidatos do que procurar
fiscalizá-los a contento, não é? A urgência de fazermos nossa parte como
eleitores (cidadãos!) é assunto do meu artigo. Convido a refletir, de forma séria, sobre a nossa postura como
quem elege, e não "lavar as mãos" diante de todas as consequências que
colhemos a partir do nosso voto. Por mais clichê que seja, a mudança
está, sim, em nossas mãos, e essa responsabilidade não termina na urna,
mas começa. Não basta eleger, tem de acompanhar, cobrar, contribuir,
participar. Isso depende de uma longa mudança cultural, é verdade. Mas
não existe maratona sem o primeiro passo!
COLUNA RELEITURA - 01/08/2016
O eleitor é que precisa evoluir
Daíza Lacerda
Pode não ser nos próximos quatro anos. Nem mesmo neste milênio. Mas a postura do eleitor precisa mudar tanto quanto a batida fórmula dos candidatos. Cobramos sangue e ideias novos, mas nós mesmos não evoluímos o nosso "relacionamento" com políticos e com a política. O esquecimento em quem votou em eleições passadas é uma das evidências mais graves.
É fato que nunca tantas pessoas serão cumprimentadas em inícios e meios de mandato como serão nos próximos meses. Já se ouve por aí que "vai começar" aquilo tudo que a gente já conhece na rotina pré-eleições, seguida de um revirar de olhos. Boa parte não consegue esconder o desânimo, já esperando mais do mesmo: discursos, promessas, quintais e ruas imundos com santinhos e a encheção de saco dos carros de som.
Sei que a descrença nas instituições é considerável, e não sem motivo. Só não dá para ignorar que as instituições são reflexos das nossas escolhas e, principalmente, dos nossos desleixos. Milhares elegem um vereador ou deputado, mas quantos acompanham sua conduta durante o mandato? Verbalizar em rede social é fácil, mas quem vai no gabinete para cobrar posição e atuação condizentes? Daí, chega esta época, emerge o circo do desespero como o retratado na última sexta nesta Gazeta, em matéria da jornalista Érica Samara, sobre a quantidade de proposituras arquivadas por serem ilegais. Parte das dezenas de pessoas que são pagas com o nosso dinheiro para legislar e fiscalizar, sequer sabe uma coisa ou pratica outra. Isso só para ficar no âmbito municipal.
Quero acreditar que nossos critérios como eleitores é que serão responsáveis por elevar o nível principalmente de comprometimento de candidatos, ainda que eu não esteja viva para usufruir disso. Afinal, dependerá de uma profunda mudança de cultura que, felizmente, começou, ainda que tímida perto da revolução que necessitamos. Antes tarde do que mais tarde.
Já passou da hora, por exemplo, de acabar com os votos de protesto, elegendo figuras cujos perfis são evidentemente inaptos para qualquer cargo eletivo. Já passou da hora de torcer o nariz para horário político, e tentar avaliar as propostas - para avaliá-las e cobrá-las no futuro, se for o caso. No mínimo, vai garantir risadas, o que é quase inevitável na campanha televisiva.
Estamos mais céticos, mas muitos ainda se rendem à ingenuidade perante a imagem. Passou da hora de se deixar levar pela trilha sonora envolvente, pelo sorriso falso nas fotos, pelos terninhos e camisas, pelo excesso de base facial ou de Photoshop mesmo e ir direto ao que interessa. Não basta saber quais são as propostas, mas a viabilidade, como serão executadas, se são possíveis ou palavras ao vento. Estamos condicionados às promessas vagas. E na hora do vamos ver, a velha justificativa da falta de verba, de entraves jurídicos.
Nós também temos de ser realistas o suficiente para saber o que é e o que não é possível dentro das fórmulas que nos serão vendidas. Não dá para tolerar ingerência e má vontade, mas também não dá para esperar milagres. Para isso, é preciso se envolver, se interessar o mínimo para entender as engrenagens que fazem uma cidade evoluir ou não. Nada menos do que exercer a cidadania.
COLUNA RELEITURA - 01/08/2016
O eleitor é que precisa evoluir
Daíza Lacerda
Pode não ser nos próximos quatro anos. Nem mesmo neste milênio. Mas a postura do eleitor precisa mudar tanto quanto a batida fórmula dos candidatos. Cobramos sangue e ideias novos, mas nós mesmos não evoluímos o nosso "relacionamento" com políticos e com a política. O esquecimento em quem votou em eleições passadas é uma das evidências mais graves.
É fato que nunca tantas pessoas serão cumprimentadas em inícios e meios de mandato como serão nos próximos meses. Já se ouve por aí que "vai começar" aquilo tudo que a gente já conhece na rotina pré-eleições, seguida de um revirar de olhos. Boa parte não consegue esconder o desânimo, já esperando mais do mesmo: discursos, promessas, quintais e ruas imundos com santinhos e a encheção de saco dos carros de som.
Sei que a descrença nas instituições é considerável, e não sem motivo. Só não dá para ignorar que as instituições são reflexos das nossas escolhas e, principalmente, dos nossos desleixos. Milhares elegem um vereador ou deputado, mas quantos acompanham sua conduta durante o mandato? Verbalizar em rede social é fácil, mas quem vai no gabinete para cobrar posição e atuação condizentes? Daí, chega esta época, emerge o circo do desespero como o retratado na última sexta nesta Gazeta, em matéria da jornalista Érica Samara, sobre a quantidade de proposituras arquivadas por serem ilegais. Parte das dezenas de pessoas que são pagas com o nosso dinheiro para legislar e fiscalizar, sequer sabe uma coisa ou pratica outra. Isso só para ficar no âmbito municipal.
Quero acreditar que nossos critérios como eleitores é que serão responsáveis por elevar o nível principalmente de comprometimento de candidatos, ainda que eu não esteja viva para usufruir disso. Afinal, dependerá de uma profunda mudança de cultura que, felizmente, começou, ainda que tímida perto da revolução que necessitamos. Antes tarde do que mais tarde.
Já passou da hora, por exemplo, de acabar com os votos de protesto, elegendo figuras cujos perfis são evidentemente inaptos para qualquer cargo eletivo. Já passou da hora de torcer o nariz para horário político, e tentar avaliar as propostas - para avaliá-las e cobrá-las no futuro, se for o caso. No mínimo, vai garantir risadas, o que é quase inevitável na campanha televisiva.
Estamos mais céticos, mas muitos ainda se rendem à ingenuidade perante a imagem. Passou da hora de se deixar levar pela trilha sonora envolvente, pelo sorriso falso nas fotos, pelos terninhos e camisas, pelo excesso de base facial ou de Photoshop mesmo e ir direto ao que interessa. Não basta saber quais são as propostas, mas a viabilidade, como serão executadas, se são possíveis ou palavras ao vento. Estamos condicionados às promessas vagas. E na hora do vamos ver, a velha justificativa da falta de verba, de entraves jurídicos.
Nós também temos de ser realistas o suficiente para saber o que é e o que não é possível dentro das fórmulas que nos serão vendidas. Não dá para tolerar ingerência e má vontade, mas também não dá para esperar milagres. Para isso, é preciso se envolver, se interessar o mínimo para entender as engrenagens que fazem uma cidade evoluir ou não. Nada menos do que exercer a cidadania.
O valor da memória
COLUNA RELEITURA - 18/07/2016
O valor da memória
Daíza Lacerda
Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum "livro" como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir...
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de "lixo", um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.
O valor da memória
Daíza Lacerda
Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum "livro" como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir...
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de "lixo", um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.
Quando o absurdo é a regra
COLUNA RELEITURA - 11/07/2016
Quando o absurdo é a regra
Daíza Lacerda
Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas... por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como "academia natural". Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, "não guenta, não tenta". Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido "cristão", dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à "democracia" de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça "no grito", e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.
Quando o absurdo é a regra
Daíza Lacerda
Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas... por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como "academia natural". Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, "não guenta, não tenta". Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido "cristão", dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à "democracia" de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça "no grito", e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.
Ao mestre, com carinho
O artigo desta semana é sobre o professor Fumaça, e a nova fase que testemunha daquela que foi a sua casa por quase 50 anos, a pista do Tiro de Guerra. Neste texto peço licença para misturar a jornalista e corredora amadora, dividindo um fragmento do filme que passou na minha cabeça ao fazer parte daquele espaço e ter acompanhado tão de perto a transformação pela qual passou. No mais, fica a minha admiração ao professor e o agradecimento por mais uma lição: o amor incondicional ao que se tem como missão de vida, ainda que isso exija o desapego.
COLUNA RELEITURA - 04/07/2016
Ao mestre, com carinho
Daíza Lacerda
Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao "novo lar", na área ao lado da Câmara Municipal - que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.
COLUNA RELEITURA - 04/07/2016
Ao mestre, com carinho
Daíza Lacerda
Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao "novo lar", na área ao lado da Câmara Municipal - que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.
O riso do Betinho
Meu artigo de hoje traz o lado B da reportagem, aquilo que nem sempre cabe na tal da objetividade jornalística. A satisfação sincera, aquela alegria genuína incontida, são manifestações que podem passar ao largo dos limites da lauda, mas é impossível sair imune a demonstrações como essas. Betinho dá a cara a um trabalho que é de equipe, mas para ele é muito mais. É uma missão de vida. Dedicada a outras vidas vulneráveis. O inverno quer se fazer de difícil. Vamos ver se ele é páreo para o riso do Betinho.
COLUNA RELEITURA - 20/06/2016
O riso do Betinho
Daíza Lacerda
Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocracia sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.
COLUNA RELEITURA - 20/06/2016
O riso do Betinho
Daíza Lacerda
Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocracia sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.
O amor evoluiu. A sociedade, não
COLUNA RELEITURA - 13/06/2016
O amor evoluiu. A sociedade, não
Daíza Lacerda
"Tem muito casado solitário e muito solteiro cheio de companhia. Ô se tem". Essa é apenas uma das provocações para refletir a nossa situação acerca de relacionamentos, cutucada pela advogada e blogueira Ruth Manus, que assina espaço semanal no site do Estadão. O post em questão (http://bit.ly/1Ohal7g) relativiza a tão cobrada necessidade de um par para ser feliz, pregada pelo senso comum.
Em tempos em que até o papa é progressista, "mente aberta" como diriam alguns, fico imaginando a demanda atual de preces a Santo Antônio, o santo casamenteiro que tem o dia celebrado hoje. Como será a sua popularidade entre os solteiros desta época?
A busca por um companheiro é algo que somos condicionados a fazer pela herança de costumes sociais ou é, de fato, uma necessidade? São tempos nebulosos para definir uma linha, mas é certo que não cabem mais as lamentações aos desacompanhados, para citar um dos pontos abordados por Ruth. Afinal, por quê o desacompanhado seria um coitado se há tantas pessoas acompanhadas e infelizes? "O que me parece é que tem muita gente que não entende que não se mede a felicidade de alguém de acordo com a presença de anel no dedo, de beijocas no cinema, nem de papéis assinados. Sim, muitos são felizes acompanhados. Mas não é a mera existência de um companheiro que define se alguém tem uma vida plena. Uma vida plena tem trabalho, amigos, família, sonhos, liberdade, projetos e… Um cônjuge OU NÃO", define ela.
Talvez a convivência com amigos ou desbravar o mundo com um mochilão, acompanhado ou não, sejam planos que façam mais sentido do que juras na frente de um representante da religião, por mais que essa formalidade ainda seja vista como uma necessidade. Para quê casar quando, em muitas situações, relacionamentos podem usufruir do melhor dos dois mundos sem a necessidade de um contrato social?
Um dos equívocos talvez ainda seja a projeção do outro, e de nós em relação ao outro. Talvez toda essa pressão para estar acompanhado fosse por água abaixo se a premissa fosse o amor próprio, mais do que a devoção a alguém. A advogada se "preocupa ver tanta gente condicionando compromisso a felicidade porque isso é sinal de que muito relacionamento que a gente vê por aí não é baseado no prazer de estar junto, mas no medo de estar sozinho. E isso é crítico".
Como ela defende, "estar solteiro não tem nada a ver com estar sozinho". Embora a solidão seja um dos efeitos colaterais vísiveis dos nossos tempos. Trocamos presenças humanas pela companhia de telas. E a companhia de telas para buscar a presença humana, como prometem, sem garantia, os aplicativos de encontros.
Mas, quem disse que as pessoas querem mesmo isso? Difícil dizer, mas muitos supõem. E assim sucedem o revirar de olhos a cada pergunta de quando sai o casamento ou quando vai achar um namoradinho. Como se esse fosse mesmo o real sentido da vida. Os nossos tempos ainda não compreendem ou toleram formas de amor que rompem com o tradicional. Mesmo que haja mais amor entre famílias homoafetivas do que heterossexuais, e satisfação em ter par algum. É o velho hábito de condicionar a felicidade, que depende mais de nós do que de qualquer outro. Ou, nas palavras de Ruth, "Porque feliz é quem sabe que namoro e casamento não são os veículos da vida".
O amor evoluiu. A sociedade, não
Daíza Lacerda
"Tem muito casado solitário e muito solteiro cheio de companhia. Ô se tem". Essa é apenas uma das provocações para refletir a nossa situação acerca de relacionamentos, cutucada pela advogada e blogueira Ruth Manus, que assina espaço semanal no site do Estadão. O post em questão (http://bit.ly/1Ohal7g) relativiza a tão cobrada necessidade de um par para ser feliz, pregada pelo senso comum.
Em tempos em que até o papa é progressista, "mente aberta" como diriam alguns, fico imaginando a demanda atual de preces a Santo Antônio, o santo casamenteiro que tem o dia celebrado hoje. Como será a sua popularidade entre os solteiros desta época?
A busca por um companheiro é algo que somos condicionados a fazer pela herança de costumes sociais ou é, de fato, uma necessidade? São tempos nebulosos para definir uma linha, mas é certo que não cabem mais as lamentações aos desacompanhados, para citar um dos pontos abordados por Ruth. Afinal, por quê o desacompanhado seria um coitado se há tantas pessoas acompanhadas e infelizes? "O que me parece é que tem muita gente que não entende que não se mede a felicidade de alguém de acordo com a presença de anel no dedo, de beijocas no cinema, nem de papéis assinados. Sim, muitos são felizes acompanhados. Mas não é a mera existência de um companheiro que define se alguém tem uma vida plena. Uma vida plena tem trabalho, amigos, família, sonhos, liberdade, projetos e… Um cônjuge OU NÃO", define ela.
Talvez a convivência com amigos ou desbravar o mundo com um mochilão, acompanhado ou não, sejam planos que façam mais sentido do que juras na frente de um representante da religião, por mais que essa formalidade ainda seja vista como uma necessidade. Para quê casar quando, em muitas situações, relacionamentos podem usufruir do melhor dos dois mundos sem a necessidade de um contrato social?
Um dos equívocos talvez ainda seja a projeção do outro, e de nós em relação ao outro. Talvez toda essa pressão para estar acompanhado fosse por água abaixo se a premissa fosse o amor próprio, mais do que a devoção a alguém. A advogada se "preocupa ver tanta gente condicionando compromisso a felicidade porque isso é sinal de que muito relacionamento que a gente vê por aí não é baseado no prazer de estar junto, mas no medo de estar sozinho. E isso é crítico".
Como ela defende, "estar solteiro não tem nada a ver com estar sozinho". Embora a solidão seja um dos efeitos colaterais vísiveis dos nossos tempos. Trocamos presenças humanas pela companhia de telas. E a companhia de telas para buscar a presença humana, como prometem, sem garantia, os aplicativos de encontros.
Mas, quem disse que as pessoas querem mesmo isso? Difícil dizer, mas muitos supõem. E assim sucedem o revirar de olhos a cada pergunta de quando sai o casamento ou quando vai achar um namoradinho. Como se esse fosse mesmo o real sentido da vida. Os nossos tempos ainda não compreendem ou toleram formas de amor que rompem com o tradicional. Mesmo que haja mais amor entre famílias homoafetivas do que heterossexuais, e satisfação em ter par algum. É o velho hábito de condicionar a felicidade, que depende mais de nós do que de qualquer outro. Ou, nas palavras de Ruth, "Porque feliz é quem sabe que namoro e casamento não são os veículos da vida".
Vamos voltar para a selva
O pensamento de que a vida na selva deveria ser melhor do que a "civilização" que temos me ocorreu diante do vergonhoso descaso de empresas como a de energia elétrica, enquanto eu apurava as consequências da chuva da última quarta. Se uma empresa de tal porte não está pronta para responder rapidamente em situações extremas, estamos mesmo ao Deus-dará. Não são eventos típicos da época, reconheço, mas entram e saem verões com chuvas do mesmo porte. E ninguém se preocupou em investir nosso suado dinheirinho numa estrutura para, ao menos, minimizar impactos.
O fato é que não adianta reclamar. Permanecemos despreparados e incapazes de aprender nas adversidades ou prover soluções para o que sabemos há eras que não funciona. Por isso, talvez, a selva fosse mais promissora. Não seríamos reféns de organizações ou estruturas calcadas na nossa própria negligência. A única regra seria dançar conforme a música da natureza. Esta ainda é a regra. Mas, iludidos no nosso conforto, pagamos o preço por ignorá-la.
COLUNA RELEITURA - 06/06/2016
Vamos voltar para a selva
Daíza Lacerda
As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.
O fato é que não adianta reclamar. Permanecemos despreparados e incapazes de aprender nas adversidades ou prover soluções para o que sabemos há eras que não funciona. Por isso, talvez, a selva fosse mais promissora. Não seríamos reféns de organizações ou estruturas calcadas na nossa própria negligência. A única regra seria dançar conforme a música da natureza. Esta ainda é a regra. Mas, iludidos no nosso conforto, pagamos o preço por ignorá-la.
COLUNA RELEITURA - 06/06/2016
Vamos voltar para a selva
Daíza Lacerda
As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.
Seres humanos?
COLUNA RELEITURA - 30/05/2016
Seres humanos?
Daíza Lacerda
A indignação acerca do abuso sexual coletivo de mais de 30 homens contra uma adolescente de 16 anos vai muito além da violência, do desrespeito, do machismo e da cultura do estupro e da impunidade. Obriga a considerar seriamente o tipo de seres humanos que estão entre nós. Se é que podem ser nomeados assim. Como se classifica uma pessoa que é capaz de estuprar uma garota e ainda ostentar a violência? E 30? Qual o limite da baixeza?
O fato de uma situação dessas ocorrer e permanecer impune (pelo menos até o momento) não referencia indivíduos, mas escancara uma sociedade. Não só aquela que não respeita a mulher e a vontade dela. É aquela que não respeita o seu semelhante, o próximo, independentemente da sua condição. O que esperar disso, senão mais barbárie?
Essa não é uma realidade só do Brasil, assim como a negligência e impunidade não são marcas só do nosso país. Mas ainda conseguimos surpreender. Não deveríamos. A atitude tem de prevalecer sobre a surpresa.
A impunidade de estupros chamou atenção do jornalista Jon Krakauer. O aventureiro autor de "No ar rarefeito", que deu origem ao recente filme Everest, mudou de pauta e foi investigar os abusos na universidade de uma cidade norte-americana. Deu origem ao livro "Missoula", recentemente lançado no Brasil. A literatura estrangeira também tem a culpa de Stieg Larsson, já falecido. Na série iniciada com "Os homens que não amavam as mulheres", o autor sueco transforma Lisbeth no exemplo de empoderamento e justiça, dando à personagem o nome da menina de 15 anos que ele viu sofrer um estupro coletivo, sem ter feito nada para impedir.
Se investigada seriamente, a incidência no Brasil também renderia livros e, trazendo à tona uma situação que não é pontual, como fazem parecer os casos mais bárbaros. Enquanto isso, muita gente ainda assiste de braços cruzados. Afinal, há dezenas de famílias ocultando monstros que são autores desses crimes. Não encoberte um monstro. Principalmente: não crie um monstro.
Quem (o quê) são, o que fazem e de onde vêm os estupradores? Talvez sejam as perguntas erradas. A questão é: por que ainda há quem cometa esta e outras barbaridades contra pessoas? Será só a impunidade? Será alguma patologia ainda não estudada a fundo? Ou será a nossa permissividade ao darmos a audiência que eles querem sem revertê-la numa eficiente punição? Afinal, se o machismo em tempos como o nosso está ao lado, firme, que dirá sobre os outros desvios de conduta disseminados como se não houvesse amanhã.
É cômodo viver na ignorância de que esses casos são mais frequentes do que imaginamos. Mas não podem, de forma alguma, serem tratados como comuns. Estamos, sem perceber, de várias formas, perdendo referências morais da nossa própria espécie - que deveriam ser o que nos diferencia. Preconceito contra a mulher. Contra o negro, o homossexual. O pobre. Derrubadas todas as grades da classificação, é o homem x homem. A voracidade do ser humano na destruição da sua própria carne e sangue é de envergonhar o mais primitivo dos animais.

Seres humanos?
Daíza Lacerda
A indignação acerca do abuso sexual coletivo de mais de 30 homens contra uma adolescente de 16 anos vai muito além da violência, do desrespeito, do machismo e da cultura do estupro e da impunidade. Obriga a considerar seriamente o tipo de seres humanos que estão entre nós. Se é que podem ser nomeados assim. Como se classifica uma pessoa que é capaz de estuprar uma garota e ainda ostentar a violência? E 30? Qual o limite da baixeza?
O fato de uma situação dessas ocorrer e permanecer impune (pelo menos até o momento) não referencia indivíduos, mas escancara uma sociedade. Não só aquela que não respeita a mulher e a vontade dela. É aquela que não respeita o seu semelhante, o próximo, independentemente da sua condição. O que esperar disso, senão mais barbárie?
Essa não é uma realidade só do Brasil, assim como a negligência e impunidade não são marcas só do nosso país. Mas ainda conseguimos surpreender. Não deveríamos. A atitude tem de prevalecer sobre a surpresa.
A impunidade de estupros chamou atenção do jornalista Jon Krakauer. O aventureiro autor de "No ar rarefeito", que deu origem ao recente filme Everest, mudou de pauta e foi investigar os abusos na universidade de uma cidade norte-americana. Deu origem ao livro "Missoula", recentemente lançado no Brasil. A literatura estrangeira também tem a culpa de Stieg Larsson, já falecido. Na série iniciada com "Os homens que não amavam as mulheres", o autor sueco transforma Lisbeth no exemplo de empoderamento e justiça, dando à personagem o nome da menina de 15 anos que ele viu sofrer um estupro coletivo, sem ter feito nada para impedir.
Se investigada seriamente, a incidência no Brasil também renderia livros e, trazendo à tona uma situação que não é pontual, como fazem parecer os casos mais bárbaros. Enquanto isso, muita gente ainda assiste de braços cruzados. Afinal, há dezenas de famílias ocultando monstros que são autores desses crimes. Não encoberte um monstro. Principalmente: não crie um monstro.
Quem (o quê) são, o que fazem e de onde vêm os estupradores? Talvez sejam as perguntas erradas. A questão é: por que ainda há quem cometa esta e outras barbaridades contra pessoas? Será só a impunidade? Será alguma patologia ainda não estudada a fundo? Ou será a nossa permissividade ao darmos a audiência que eles querem sem revertê-la numa eficiente punição? Afinal, se o machismo em tempos como o nosso está ao lado, firme, que dirá sobre os outros desvios de conduta disseminados como se não houvesse amanhã.
É cômodo viver na ignorância de que esses casos são mais frequentes do que imaginamos. Mas não podem, de forma alguma, serem tratados como comuns. Estamos, sem perceber, de várias formas, perdendo referências morais da nossa própria espécie - que deveriam ser o que nos diferencia. Preconceito contra a mulher. Contra o negro, o homossexual. O pobre. Derrubadas todas as grades da classificação, é o homem x homem. A voracidade do ser humano na destruição da sua própria carne e sangue é de envergonhar o mais primitivo dos animais.

Nada cairá do céu
COLUNA RELEITURA - 23/05/2016
Nada cairá do céu
Daíza Lacerda
Algumas situações recentes me levaram a pensar que, embora possivelmente estejamos na época mais intensa de atividades de todos os tempos, também há uma parcela considerável tomada pela inanição, pontual ou não. Muita gente reclamando demais e agindo pouco para, de fato, mudar o que lhe incomoda.
Exemplos não faltam. Há algumas semanas, alunos da Unicamp foram às ruas protestar contra a falta de segurança no entorno do campus. Mas quantos saem das festas nas repúblicas para registrar um boletim de ocorrência? Cadê os estudantes em peso para cobrar e discutir a situação nas reuniões mensais do Conseg?
Não para por aí. Também tem ocorrido reclamações de moradores do Jardim Ibirapuera, que alegam aumento da circulação de andarilhos após a implantação do Centro Pop no bairro. Mas quantos moradores abordados foram pedir providências justamente no Centro Pop, ou tomar a atitude de ligar para o 153 ou 199 para abordagem social da pessoa em situação de rua?
Sujeira na cidade afora também é queixa recorrente. Muita gente não se dá ao trabalho de registrar pedidos no 156, e "terceirizam" o serviço para o jornal. No entanto, há pessoas que colecionam protocolos sem serem atendidas pelo poder público, o que realmente justifica a divulgação do problema. Muitas vezes, moradores gastam mais tempo reclamando com vizinhos do que de fato fiscalizando e agindo em sua comunidade. A ineficiência está em não dar conta de limpar ou do povo não aprender a não sujar? Deixar a responsabilidade para os outros é fácil. E a nossa parte?
O trânsito também é campeão da má vontade. Só que nós também somos o trânsito. A partir do momento em que se opta pelo veículo particular, vamos inevitavelmente dividir (disputar?) espaço. Vai resolver mais reclamar ou se programar para sair em horários alternativos?
Ignoramos o quanto a passividade pode nos custar. Recentemente entrei numa discussão sobre a velhice, e a "obrigatoriedade" de filhos terem de cuidar dos seus idosos. Pensando daqui adiante, num contexto de longevidade muito maior do que a de nossos antepassados, como estamos nos preparando para os nossos anos finais? É justo contar que alguém cuide de nós quando temos plenas condições, agora, de nos preparar para viver mais e melhor? Não é responsabilidade nossa providenciar plano de saúde, exames periódicos preventivos, poupança e hábitos saudáveis para ter o mínimo de dependência possível quando isso for inevitável? E o que garante que haverá alguém por nós lá na frente? Como vamos saber por quais caminhos nossos entes serão levados, se eles terão disponibilidade ou interesse de olhar por nós? Amor da família é importante, mas o amor próprio também. Sempre é hora de se cuidar.
Se tanta gente não se mexe para garantir o mínimo, o que será do todo? Infelizmente não reina entre nós a cultura do planejamento, que é o essencial para qualquer objetivo. E por que terceirizar o que é do nosso interesse, em qualquer âmbito?
Há uma máxima que diz que não dá pra esperar resultados diferentes quando se faz as mesmas coisas. É fato. Sem ação ou reação, nada cai do céu. Nem mesmo a chuva, que depende de fenômenos e determinadas condições para se materializar.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Nada cairá do céu
Daíza Lacerda
Algumas situações recentes me levaram a pensar que, embora possivelmente estejamos na época mais intensa de atividades de todos os tempos, também há uma parcela considerável tomada pela inanição, pontual ou não. Muita gente reclamando demais e agindo pouco para, de fato, mudar o que lhe incomoda.
Exemplos não faltam. Há algumas semanas, alunos da Unicamp foram às ruas protestar contra a falta de segurança no entorno do campus. Mas quantos saem das festas nas repúblicas para registrar um boletim de ocorrência? Cadê os estudantes em peso para cobrar e discutir a situação nas reuniões mensais do Conseg?
Não para por aí. Também tem ocorrido reclamações de moradores do Jardim Ibirapuera, que alegam aumento da circulação de andarilhos após a implantação do Centro Pop no bairro. Mas quantos moradores abordados foram pedir providências justamente no Centro Pop, ou tomar a atitude de ligar para o 153 ou 199 para abordagem social da pessoa em situação de rua?
Sujeira na cidade afora também é queixa recorrente. Muita gente não se dá ao trabalho de registrar pedidos no 156, e "terceirizam" o serviço para o jornal. No entanto, há pessoas que colecionam protocolos sem serem atendidas pelo poder público, o que realmente justifica a divulgação do problema. Muitas vezes, moradores gastam mais tempo reclamando com vizinhos do que de fato fiscalizando e agindo em sua comunidade. A ineficiência está em não dar conta de limpar ou do povo não aprender a não sujar? Deixar a responsabilidade para os outros é fácil. E a nossa parte?
O trânsito também é campeão da má vontade. Só que nós também somos o trânsito. A partir do momento em que se opta pelo veículo particular, vamos inevitavelmente dividir (disputar?) espaço. Vai resolver mais reclamar ou se programar para sair em horários alternativos?
Ignoramos o quanto a passividade pode nos custar. Recentemente entrei numa discussão sobre a velhice, e a "obrigatoriedade" de filhos terem de cuidar dos seus idosos. Pensando daqui adiante, num contexto de longevidade muito maior do que a de nossos antepassados, como estamos nos preparando para os nossos anos finais? É justo contar que alguém cuide de nós quando temos plenas condições, agora, de nos preparar para viver mais e melhor? Não é responsabilidade nossa providenciar plano de saúde, exames periódicos preventivos, poupança e hábitos saudáveis para ter o mínimo de dependência possível quando isso for inevitável? E o que garante que haverá alguém por nós lá na frente? Como vamos saber por quais caminhos nossos entes serão levados, se eles terão disponibilidade ou interesse de olhar por nós? Amor da família é importante, mas o amor próprio também. Sempre é hora de se cuidar.
Se tanta gente não se mexe para garantir o mínimo, o que será do todo? Infelizmente não reina entre nós a cultura do planejamento, que é o essencial para qualquer objetivo. E por que terceirizar o que é do nosso interesse, em qualquer âmbito?
Há uma máxima que diz que não dá pra esperar resultados diferentes quando se faz as mesmas coisas. É fato. Sem ação ou reação, nada cai do céu. Nem mesmo a chuva, que depende de fenômenos e determinadas condições para se materializar.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Um Underwood para chamar de nosso
COLUNA RELEITURA - 17/05/2016
Um Underwood para chamar de nosso
Daíza Lacerda
Terminando de assistir a quarta temporada de House of Cards, foi inevitável me perguntar o quanto a arte imita a vida. Na famosa série do serviço Netflix, o protagonista é o brilhante Kevin Spacey na pele de Frank Underwood, o congressista inescrupuloso que chega à presidência dos Estados Unidos. Levando-se em consideração que, após inúmeras manobras, o personagem ficcional (?) alcança o poder e tenta manter-se nele de forma ilegítima, temos agora, em Michel Temer, um Underwood para chamar de nosso. Sem saber o quanto a busca cega pelo poder ainda vai nos custar.
Eu costumava me descrever como alguém que "não é de direita e nem de esquerda, mas da contramão do lugar-comum". Sem ter nenhum partido ou ideologia política que me seduzisse, assim permaneço. E a situação do impeachment nos moldes que é executado, uma medida extrema em tempos de falsa democracia, nada mais é do que uma vertente diferenciada da costumeira falta de honra que prevalece com tudo o que é público.
Não sou a favor da política de Dilma e reconheço que o seu governo acabou faz tempo, quando ela passou a se preocupar mais em defender o cargo do que gerir o País. Também não me inspira sequer um fio de otimismo alguém que chega ao poder como Temer chegou. Embora eleito indiretamente, mas eleito, mesmo para os patamares políticos a sua traição à presidente foi vergonhosa. Mais um exemplo do qual esta Nação não precisa. Tarde, talvez comecemos a ter mais atenção aos candidatos a este cargo, situação que os espectadores da série certamente já analisam com mais interesse.
O problema que nos mantém patinando na lama não é o afastamento de Dilma, mas a permanência dos tantos que têm tanto a explicar, a exemplo da boa parte do time ministerial de Temer, além do próprio. Prova que a "justiça" é feita quando interessa, e não sempre que é necessária. Não dá pra ser otimista.
Uma análise pertinente é a do jornalista Denis Russo Burgierman, da revista Superinteressante (http://abr.ai/23NRVMN). Ele lembra que, em meio às asneiras, o principal não foi discutido na votação dos deputados: os indícios sérios dos crimes de Dilma. E que o País está cheio de ciclistas fiscais como ela, inclusive Temer que, "nos curtos períodos em que substituiu a presidente em sua ausência, pedalou três vezes mais que ela", e o próprio relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia, enquanto governador. Outro adepto citado pelo jornalista é o governador paulista Geraldo Alckmin, cujas pedaladas ultrapassariam R$ 300 milhões, "bem menos que os bilhões de Dilma, mas crime igual". E atenta: "Se o Congresso quer seriamente punir Dilma, é importante que se afirme com clareza a disposição de punir de maneira equivalente todos os ciclistas fiscais, independente de partido ou de taxa de popularidade".
Finalizo lamentando e concordando com o roteiro da vida real: "Um processo ilegítimo para punir um mandatário pelos seus processos ilegítimos não é um passo na direção de um país melhor. Não contribui em nada para deixar nossas instituições mais sólidas, justas e democráticas".
Um Underwood para chamar de nosso
Daíza Lacerda
Terminando de assistir a quarta temporada de House of Cards, foi inevitável me perguntar o quanto a arte imita a vida. Na famosa série do serviço Netflix, o protagonista é o brilhante Kevin Spacey na pele de Frank Underwood, o congressista inescrupuloso que chega à presidência dos Estados Unidos. Levando-se em consideração que, após inúmeras manobras, o personagem ficcional (?) alcança o poder e tenta manter-se nele de forma ilegítima, temos agora, em Michel Temer, um Underwood para chamar de nosso. Sem saber o quanto a busca cega pelo poder ainda vai nos custar.
Eu costumava me descrever como alguém que "não é de direita e nem de esquerda, mas da contramão do lugar-comum". Sem ter nenhum partido ou ideologia política que me seduzisse, assim permaneço. E a situação do impeachment nos moldes que é executado, uma medida extrema em tempos de falsa democracia, nada mais é do que uma vertente diferenciada da costumeira falta de honra que prevalece com tudo o que é público.
Não sou a favor da política de Dilma e reconheço que o seu governo acabou faz tempo, quando ela passou a se preocupar mais em defender o cargo do que gerir o País. Também não me inspira sequer um fio de otimismo alguém que chega ao poder como Temer chegou. Embora eleito indiretamente, mas eleito, mesmo para os patamares políticos a sua traição à presidente foi vergonhosa. Mais um exemplo do qual esta Nação não precisa. Tarde, talvez comecemos a ter mais atenção aos candidatos a este cargo, situação que os espectadores da série certamente já analisam com mais interesse.
O problema que nos mantém patinando na lama não é o afastamento de Dilma, mas a permanência dos tantos que têm tanto a explicar, a exemplo da boa parte do time ministerial de Temer, além do próprio. Prova que a "justiça" é feita quando interessa, e não sempre que é necessária. Não dá pra ser otimista.
Uma análise pertinente é a do jornalista Denis Russo Burgierman, da revista Superinteressante (http://abr.ai/23NRVMN). Ele lembra que, em meio às asneiras, o principal não foi discutido na votação dos deputados: os indícios sérios dos crimes de Dilma. E que o País está cheio de ciclistas fiscais como ela, inclusive Temer que, "nos curtos períodos em que substituiu a presidente em sua ausência, pedalou três vezes mais que ela", e o próprio relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia, enquanto governador. Outro adepto citado pelo jornalista é o governador paulista Geraldo Alckmin, cujas pedaladas ultrapassariam R$ 300 milhões, "bem menos que os bilhões de Dilma, mas crime igual". E atenta: "Se o Congresso quer seriamente punir Dilma, é importante que se afirme com clareza a disposição de punir de maneira equivalente todos os ciclistas fiscais, independente de partido ou de taxa de popularidade".
Finalizo lamentando e concordando com o roteiro da vida real: "Um processo ilegítimo para punir um mandatário pelos seus processos ilegítimos não é um passo na direção de um país melhor. Não contribui em nada para deixar nossas instituições mais sólidas, justas e democráticas".
A imoralidade nossa de cada dia
COLUNA RELEITURA - 10/05/2016
A imoralidade nossa de cada dia
Daíza Lacerda
Confesso que assisto versão pirata de filmes. Principalmente aqueles lançamentos que passam longe dos tantos cinemas de Limeira, que oferecem apenas mais horários dos mesmos blockbusters. Nenhum ainda teve coragem de adotar uma linha mais alternativa, sem deixar os lançamentos de lado. Sei que não justifica a prática, e também não faço ideia do quanto eu leso o bolso de produtores e astros fazendo isso. Não gero essas cópias falsas, mas, se estão disponíveis, assisto. Esta é a minha imoralidade consciente. Qual é a sua?
As práticas imorais tidas como "inofensivas" são tão intrínsecas na vida do brasileiro, que muitos devem considerá-las legítimas. Tipo usar vaga especial, em estacionamentos e veículos públicos. Furar fila descaradamente. Usar carteirinha falsa para garantir pagamento de meia entrada em eventos. Comprar de lojas cujos produtos são fruto de trabalho análogo ao escravo. Dificultar a passagem de ambulâncias no trânsito. Falsificar ou usar indevidamente atestados médicos.
Atestar que tem uma doença crônica quando não tem, só para garantir a imunização contra a gripe, é uma das coisas que nos faz entender porque o nosso país é como é. Em meio ao furacão político, cidadãos bradam pela caça aos corruptos. Sabe-se lá quantos deles tirando uma vacina de alguém que realmente precisa, por exemplo.
A situação foi trazida pela jornalista Renata Reis na edição de sábado da Gazeta, e coloca em cheque não só a conduta de pacientes como a de médicos. Pode não ser um crime. Pode não desrespeitar nenhuma lei. Mas é certo? Ano após ano, as vacinas sobraram nos postos. Mesmo com a oportunidade, ninguém procurou se imunizar. E uma vertente nova da gripe tampouco mudou os hábitos, tanto de higienização quanto de educação. Afinal, mesmo sem H1N1, nunca foi bonito espirrar na cara dos outros.
Mas, no país das vantagens, é mais fácil "dar um jeitinho" de conseguir a vacina do que tomar cuidado para evitar o vírus. Deveríamos estar aliviados por estar fora do grupo prioritário, supondo-se ter uma imunidade melhor contra o que de pior a doença pode causar. Mas o brasileiro tem uma cultura de remediar doenças, e não de preveni-las (com a vacina da boa alimentação e atividade física). Daí bate o desespero e a cara de pau.
Exceto pelo que mexe no bolso (alguém relacionou o preço exorbitante de alguns ingressos com a explosão da meia entrada?), não sabemos mensurar o impacto das nossas imoralidades cotidianas. Mas não acredito que haja consciência impune quando o que está em jogo são vidas muito mais vulneráveis do que a nossa. Não acredito que haja justificativa plausível o bastante para atrasar uma ambulância ou tirar a vacina de alguém que pode, de verdade, precisar dela para continuar vivendo.
É sempre um risco generalizar, mas são situações que levam a crer que Renato Russo estava certo, em essência. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da Nação.
A imoralidade nossa de cada dia
Daíza Lacerda
Confesso que assisto versão pirata de filmes. Principalmente aqueles lançamentos que passam longe dos tantos cinemas de Limeira, que oferecem apenas mais horários dos mesmos blockbusters. Nenhum ainda teve coragem de adotar uma linha mais alternativa, sem deixar os lançamentos de lado. Sei que não justifica a prática, e também não faço ideia do quanto eu leso o bolso de produtores e astros fazendo isso. Não gero essas cópias falsas, mas, se estão disponíveis, assisto. Esta é a minha imoralidade consciente. Qual é a sua?
As práticas imorais tidas como "inofensivas" são tão intrínsecas na vida do brasileiro, que muitos devem considerá-las legítimas. Tipo usar vaga especial, em estacionamentos e veículos públicos. Furar fila descaradamente. Usar carteirinha falsa para garantir pagamento de meia entrada em eventos. Comprar de lojas cujos produtos são fruto de trabalho análogo ao escravo. Dificultar a passagem de ambulâncias no trânsito. Falsificar ou usar indevidamente atestados médicos.
Atestar que tem uma doença crônica quando não tem, só para garantir a imunização contra a gripe, é uma das coisas que nos faz entender porque o nosso país é como é. Em meio ao furacão político, cidadãos bradam pela caça aos corruptos. Sabe-se lá quantos deles tirando uma vacina de alguém que realmente precisa, por exemplo.
A situação foi trazida pela jornalista Renata Reis na edição de sábado da Gazeta, e coloca em cheque não só a conduta de pacientes como a de médicos. Pode não ser um crime. Pode não desrespeitar nenhuma lei. Mas é certo? Ano após ano, as vacinas sobraram nos postos. Mesmo com a oportunidade, ninguém procurou se imunizar. E uma vertente nova da gripe tampouco mudou os hábitos, tanto de higienização quanto de educação. Afinal, mesmo sem H1N1, nunca foi bonito espirrar na cara dos outros.
Mas, no país das vantagens, é mais fácil "dar um jeitinho" de conseguir a vacina do que tomar cuidado para evitar o vírus. Deveríamos estar aliviados por estar fora do grupo prioritário, supondo-se ter uma imunidade melhor contra o que de pior a doença pode causar. Mas o brasileiro tem uma cultura de remediar doenças, e não de preveni-las (com a vacina da boa alimentação e atividade física). Daí bate o desespero e a cara de pau.
Exceto pelo que mexe no bolso (alguém relacionou o preço exorbitante de alguns ingressos com a explosão da meia entrada?), não sabemos mensurar o impacto das nossas imoralidades cotidianas. Mas não acredito que haja consciência impune quando o que está em jogo são vidas muito mais vulneráveis do que a nossa. Não acredito que haja justificativa plausível o bastante para atrasar uma ambulância ou tirar a vacina de alguém que pode, de verdade, precisar dela para continuar vivendo.
É sempre um risco generalizar, mas são situações que levam a crer que Renato Russo estava certo, em essência. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da Nação.
Padecer no paraíso?
COLUNA RELEITURA - 03/05/2016
Padecer no paraíso?
Daíza Lacerda
Dia das Mães e Natal devem empatar não só no quesito movimento no comércio, mas também em hipocrisia. Ainda que as proles reconheçam que presente algum vai compensar o sofrimento imensurável que inevitavelmente proporcionamos a quem nos trouxe ao mundo.
Em muitas situações parece perdido o "paraíso" de mães reais dentro da batida expressão de que ser mãe é padecer no paraíso. Em muitas, só vejo o padecer. Claro que o mundo é nutrido também pelo encanto de novas mães (ou nem tão novas assim) como primeira testemunha da evolução ali, na sua frente. O riso que compensa qualquer choro, a feição que vale por todas as noites mal ou não dormidas. Mas, na busca da plenitude da nossa própria vida, penalizamos as mães voluntária ou involuntariamente, já que elas são presas a um cargo perpétuo. Pedir para que elas não se preocupem é uma das principais bobagens que costumamos repetir. Vamos correr os riscos vida afora enquanto elas emendam as preces. E faltam meios para saber até que ponto esse vínculo é mais biológico ou mais cultural. Afinal, também há mães que desapegam.
Sou do time que não pretende colaborar com a densidade demográfica e me espanta, em tempos como o nosso, muita gente ainda arregalar os olhos para isso. Há quem pense que todos têm a obrigação de colocar um filho no mundo como uma "ordem natural das coisas", mas poucos estão abertos a aceitar um descendente homossexual, por exemplo. É uma das questões que os próximos pais têm de estar prontos. Também não custa considerar que, às vezes, gostar muito de crianças pode ser uma boa razão para não tê-las. Afinal, que mundo estamos deixando para as próximas gerações? E que filhos estamos deixando para o mundo?
É recorrente a pergunta sobre quem cuidará de nós na velhice, senão os filhos. Tê-los pensando em amparo no fim da vida pode parecer normal, mas a mim soa como egoísmo. Não faltam exemplos de idosos praticamente jogados pelos cantos porque os filhos não querem ou não podem cuidar, por ter suas próprias vidas e demandas a lidar. Não estou dizendo que não há o dever de cuidar, pois este existe. Mas não acredito que, no modo de vida que deve prevalecer daqui em diante, os filhos devam vir ao mundo com esta obrigação decretada. Passou da hora de termos a consciência de planejar a nossa própria velhice, seja cuidando bem da saúde para viver mais e melhor ou fazendo a poupança para bancar a instituição que vai nos abrigar. Isso não deve ser deixado como um fardo, embora o senso torto indique o contrário. Afinal, os filhos não são criados "para o mundo"?
No Dia das Mães, tentamos compensar de forma material tudo aquilo que deveria ser cotidiano e não necessariamente físico, como justamente o cuidado diário que impeça ao máximo o sofrimento lá no fim. É uma relação complexa dentro de incontáveis variáveis. Está além do nosso saber e entender se há ou haverá mais paraíso do que padecimento a quem se dispõe à aventura da maternidade. A única conclusão possível é do filósofo, quando diz que o coração tem razões que a própria razão desconhece.
Padecer no paraíso?
Daíza Lacerda
Dia das Mães e Natal devem empatar não só no quesito movimento no comércio, mas também em hipocrisia. Ainda que as proles reconheçam que presente algum vai compensar o sofrimento imensurável que inevitavelmente proporcionamos a quem nos trouxe ao mundo.
Em muitas situações parece perdido o "paraíso" de mães reais dentro da batida expressão de que ser mãe é padecer no paraíso. Em muitas, só vejo o padecer. Claro que o mundo é nutrido também pelo encanto de novas mães (ou nem tão novas assim) como primeira testemunha da evolução ali, na sua frente. O riso que compensa qualquer choro, a feição que vale por todas as noites mal ou não dormidas. Mas, na busca da plenitude da nossa própria vida, penalizamos as mães voluntária ou involuntariamente, já que elas são presas a um cargo perpétuo. Pedir para que elas não se preocupem é uma das principais bobagens que costumamos repetir. Vamos correr os riscos vida afora enquanto elas emendam as preces. E faltam meios para saber até que ponto esse vínculo é mais biológico ou mais cultural. Afinal, também há mães que desapegam.
Sou do time que não pretende colaborar com a densidade demográfica e me espanta, em tempos como o nosso, muita gente ainda arregalar os olhos para isso. Há quem pense que todos têm a obrigação de colocar um filho no mundo como uma "ordem natural das coisas", mas poucos estão abertos a aceitar um descendente homossexual, por exemplo. É uma das questões que os próximos pais têm de estar prontos. Também não custa considerar que, às vezes, gostar muito de crianças pode ser uma boa razão para não tê-las. Afinal, que mundo estamos deixando para as próximas gerações? E que filhos estamos deixando para o mundo?
É recorrente a pergunta sobre quem cuidará de nós na velhice, senão os filhos. Tê-los pensando em amparo no fim da vida pode parecer normal, mas a mim soa como egoísmo. Não faltam exemplos de idosos praticamente jogados pelos cantos porque os filhos não querem ou não podem cuidar, por ter suas próprias vidas e demandas a lidar. Não estou dizendo que não há o dever de cuidar, pois este existe. Mas não acredito que, no modo de vida que deve prevalecer daqui em diante, os filhos devam vir ao mundo com esta obrigação decretada. Passou da hora de termos a consciência de planejar a nossa própria velhice, seja cuidando bem da saúde para viver mais e melhor ou fazendo a poupança para bancar a instituição que vai nos abrigar. Isso não deve ser deixado como um fardo, embora o senso torto indique o contrário. Afinal, os filhos não são criados "para o mundo"?
No Dia das Mães, tentamos compensar de forma material tudo aquilo que deveria ser cotidiano e não necessariamente físico, como justamente o cuidado diário que impeça ao máximo o sofrimento lá no fim. É uma relação complexa dentro de incontáveis variáveis. Está além do nosso saber e entender se há ou haverá mais paraíso do que padecimento a quem se dispõe à aventura da maternidade. A única conclusão possível é do filósofo, quando diz que o coração tem razões que a própria razão desconhece.
Ode à cidade
COLUNA RELEITURA 26/04/2016
Ode à cidade
Daíza Lacerda
Os entusiastas da corrida urbana podem dividir o campo de prova, a rua, com os melhores e mais rápidos, enquanto isso não é possível em muitos outros esportes. Afinal, não há simples mortais dominando a bola num Allianz Parque ou jogando tênis no Roland Garros. Na manhã de domingo, nas ruas de São Paulo, eu era uma das milhares de mortais passando pelo rastros (já frios!) de quenianos e da elite brasileira nos 42 km da maratona, cruzando ao menos uma vez com os heróis da resistência física e mental, ainda que anos-luz atrás deles. Embora o alto rendimento separe os nossos mundos, eles enfrentaram o mesmo asfalto que eu, quilômetro a quilômetro.
A cidade foi minha cúmplice. Para vencer a distância, nada melhor que o próprio quintal como campo de treino, com o que de mais desafiador a terrinha tem a oferecer, entre ladeiras e falta de sombra. Diversas sugestões de matérias e ideias para artigos neste espaço saíram dos treinos no asfalto ou parques de Limeira, onde gastei muita sola de tênis e litros de suor. Sabendo o que tinha a cumprir, independentemente do tempo, foi possível absorver as belezas (e tristezas) além do asfalto.
Nos parques, é bonito de ver os velhinhos tentando dar um chega pra lá no sedentarismo, arriscando trotes entre as caminhadas. Na pista, nada como a criançada querendo apostar corrida para dar uma animada nos treinos. Nas vias de comércio forte, o trânsito é de donas de casa sob cheiro de almoço no ar. Pra lá e pra cá, gente esperando o ônibus. Gente indo de bicicleta.
As belezas e carências estão por toda parte. Gente deixando a cidade linda plantando flores nos canteiros públicos, ou cuidando de hortas como o seu Ayrton, no Vitório Lucato. Gente deixando a cidade imunda largando móveis velhos na calçada quando o Cacareco não está programado para aquele bairro. Áreas que recebem manutenção, outras que o mato e sujeira tomam conta. O cheiro dos eucaliptos nas trilhas do horto e o odor do lixo deixado por quem não respeita o próprio ambiente. Se as cidades são as pessoas, nosso habitat também é o nosso reflexo.
Buracos que nascem, buracos que pioram. Treino da arte de sobreviver sem tropeços ou tombos em calçadas de péssimas condições. Motoristas que querem passar por cima, outros que dão passagem. Satisfação quando a corrida está mais rápida que os carros tentando entrar na rotatória do anel viário em horário de pico. Raiva quando o longo tempo para conseguir atravessar coloca a média do treino lá embaixo.
Na longa distância, a mente manda mais do que os membros. E foi a mistura de estímulos de tantos cantos da cidade que, talvez, ajudou a talhar o autocontrole para alcançar a chegada, no mesmo organismo de um coração molenga. As ruas da cidade formaram a trilha do caminho de um sonho possível.
Enquanto treinava, via a vida acontecer. Imaginava o que movia tantos anônimos, se a força do cotidiano ou a esperança de dias e condições melhores. Na corrida e na vida na cidade, cada metro adiante é um desafio. Talvez, em ambas, para sermos acolhidos, seja necessário desbravá-las.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Ode à cidade
Daíza Lacerda
Os entusiastas da corrida urbana podem dividir o campo de prova, a rua, com os melhores e mais rápidos, enquanto isso não é possível em muitos outros esportes. Afinal, não há simples mortais dominando a bola num Allianz Parque ou jogando tênis no Roland Garros. Na manhã de domingo, nas ruas de São Paulo, eu era uma das milhares de mortais passando pelo rastros (já frios!) de quenianos e da elite brasileira nos 42 km da maratona, cruzando ao menos uma vez com os heróis da resistência física e mental, ainda que anos-luz atrás deles. Embora o alto rendimento separe os nossos mundos, eles enfrentaram o mesmo asfalto que eu, quilômetro a quilômetro.
A cidade foi minha cúmplice. Para vencer a distância, nada melhor que o próprio quintal como campo de treino, com o que de mais desafiador a terrinha tem a oferecer, entre ladeiras e falta de sombra. Diversas sugestões de matérias e ideias para artigos neste espaço saíram dos treinos no asfalto ou parques de Limeira, onde gastei muita sola de tênis e litros de suor. Sabendo o que tinha a cumprir, independentemente do tempo, foi possível absorver as belezas (e tristezas) além do asfalto.
Nos parques, é bonito de ver os velhinhos tentando dar um chega pra lá no sedentarismo, arriscando trotes entre as caminhadas. Na pista, nada como a criançada querendo apostar corrida para dar uma animada nos treinos. Nas vias de comércio forte, o trânsito é de donas de casa sob cheiro de almoço no ar. Pra lá e pra cá, gente esperando o ônibus. Gente indo de bicicleta.
As belezas e carências estão por toda parte. Gente deixando a cidade linda plantando flores nos canteiros públicos, ou cuidando de hortas como o seu Ayrton, no Vitório Lucato. Gente deixando a cidade imunda largando móveis velhos na calçada quando o Cacareco não está programado para aquele bairro. Áreas que recebem manutenção, outras que o mato e sujeira tomam conta. O cheiro dos eucaliptos nas trilhas do horto e o odor do lixo deixado por quem não respeita o próprio ambiente. Se as cidades são as pessoas, nosso habitat também é o nosso reflexo.
Buracos que nascem, buracos que pioram. Treino da arte de sobreviver sem tropeços ou tombos em calçadas de péssimas condições. Motoristas que querem passar por cima, outros que dão passagem. Satisfação quando a corrida está mais rápida que os carros tentando entrar na rotatória do anel viário em horário de pico. Raiva quando o longo tempo para conseguir atravessar coloca a média do treino lá embaixo.
Na longa distância, a mente manda mais do que os membros. E foi a mistura de estímulos de tantos cantos da cidade que, talvez, ajudou a talhar o autocontrole para alcançar a chegada, no mesmo organismo de um coração molenga. As ruas da cidade formaram a trilha do caminho de um sonho possível.
Enquanto treinava, via a vida acontecer. Imaginava o que movia tantos anônimos, se a força do cotidiano ou a esperança de dias e condições melhores. Na corrida e na vida na cidade, cada metro adiante é um desafio. Talvez, em ambas, para sermos acolhidos, seja necessário desbravá-las.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Show de horrores
COLUNA RELEITURA - 19/04/2016
Show de horrores
Daíza Lacerda
Confesso que não tive estômago para assistir toda a votação do impeachment, mas, no que consegui, só pude concluir que os brasileiros têm, de fato, os governantes que merecem. Em rede nacional, o desfile das bizarras estirpes que colocamos no poder. Dos tipos que não conseguem conjugar um verbo àqueles cujas dedicatórias me lembraram o Xou da Xuxa na minha infância dos anos 80. Como pode a situação mais delicada da atualidade resgatar o que de mais banal e irrelevante eu guardava nos confins da memória?
A megalomania chegou a proporções tão surreais, que não nos demos conta da gravidade de ter um muro entre nós. Uma barreira erguida no meio da Esplanada dos Ministérios para separar os anti e pró-governo. Nem as torcidas organizadas do futebol, que deixam espancados e mortos pelo caminho, teriam feito melhor, pela obsessão ao time. No país dividido, a obsessão é pelas siglas, não pelo bem comum.
Em entrevista à Folha no último sábado, o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa, defendeu que o interesse tem de ser no fortalecimento das instituições, no aperfeiçoamento das democracias. Considerou que, nos últimos anos, houve um populismo muito tolerante com a corrupção e que a "autocrítica que o Brasil está fazendo é terrível, mas muito necessária". Em minha humilde opinião, essa autocrítica está é muito torta, quando são tão massivamente aplaudidos os votos de tanta gente que tem muito a explicar, tanto quanto a presidente. Como é que se fortalece uma instituição à sombra da hipocrisia, como aceitar o julgamento daquele que é réu?
Sempre achei um desperdício mobilizações para jogos da Copa. A festa para alguns e fim de festa para outros no domingo durante e pós votação só serviu para mostrar como o termo fanfarrão se aplica ao brasileiro. Porque não se compara a decisão dos rumos políticos de um país com a de um jogo que, ao final, os jogadores ainda embolsam seus milhões e a nossa vida continua, ainda que com o ego abalado, prontos para o expediente amanhã. Desta vez, por mais que cervejas e petiscos distraíssem, no fim do jogo, foi a nossa moral em xeque. Só acho que essa mobilização toda deveria ser regra em dias de eleição, quando os protagonistas do jogo somos nós. Ainda temos a cultura de votar em qualquer um, no que que rouba mas faz, ou em fulano para não eleger ciclano, ou só na sigla mesmo para ver no que dá. Quem vota de acordo com a consciência, de verdade? Tipo votar em ninguém, se ninguém te inspirar confiança para representação em quaisquer esferas?
Quem é que tem razão para cobrar política decente depois de eleger figuras como as que vimos anteontem? Gente caricata que fez a alegria das redes sociais, mas que é cercada de todo o luxo que tem e não tem direito, bancado adivinha por quem?
Se não deu certo pela via reconhecidamente democrática, do voto, passar uma borracha na escolha não será mais promissor. Os culpados são eles ou nós?
A esta altura, não importa o lado do muro, quem colocou ou quem quer tirar. No jogo ardiloso que nos trouxe até aqui, todos saímos perdedores. Para você que também desperdiçou o seu voto anos a fio, aquele abraço.
Show de horrores
Daíza Lacerda
Confesso que não tive estômago para assistir toda a votação do impeachment, mas, no que consegui, só pude concluir que os brasileiros têm, de fato, os governantes que merecem. Em rede nacional, o desfile das bizarras estirpes que colocamos no poder. Dos tipos que não conseguem conjugar um verbo àqueles cujas dedicatórias me lembraram o Xou da Xuxa na minha infância dos anos 80. Como pode a situação mais delicada da atualidade resgatar o que de mais banal e irrelevante eu guardava nos confins da memória?
A megalomania chegou a proporções tão surreais, que não nos demos conta da gravidade de ter um muro entre nós. Uma barreira erguida no meio da Esplanada dos Ministérios para separar os anti e pró-governo. Nem as torcidas organizadas do futebol, que deixam espancados e mortos pelo caminho, teriam feito melhor, pela obsessão ao time. No país dividido, a obsessão é pelas siglas, não pelo bem comum.
Em entrevista à Folha no último sábado, o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa, defendeu que o interesse tem de ser no fortalecimento das instituições, no aperfeiçoamento das democracias. Considerou que, nos últimos anos, houve um populismo muito tolerante com a corrupção e que a "autocrítica que o Brasil está fazendo é terrível, mas muito necessária". Em minha humilde opinião, essa autocrítica está é muito torta, quando são tão massivamente aplaudidos os votos de tanta gente que tem muito a explicar, tanto quanto a presidente. Como é que se fortalece uma instituição à sombra da hipocrisia, como aceitar o julgamento daquele que é réu?
Sempre achei um desperdício mobilizações para jogos da Copa. A festa para alguns e fim de festa para outros no domingo durante e pós votação só serviu para mostrar como o termo fanfarrão se aplica ao brasileiro. Porque não se compara a decisão dos rumos políticos de um país com a de um jogo que, ao final, os jogadores ainda embolsam seus milhões e a nossa vida continua, ainda que com o ego abalado, prontos para o expediente amanhã. Desta vez, por mais que cervejas e petiscos distraíssem, no fim do jogo, foi a nossa moral em xeque. Só acho que essa mobilização toda deveria ser regra em dias de eleição, quando os protagonistas do jogo somos nós. Ainda temos a cultura de votar em qualquer um, no que que rouba mas faz, ou em fulano para não eleger ciclano, ou só na sigla mesmo para ver no que dá. Quem vota de acordo com a consciência, de verdade? Tipo votar em ninguém, se ninguém te inspirar confiança para representação em quaisquer esferas?
Quem é que tem razão para cobrar política decente depois de eleger figuras como as que vimos anteontem? Gente caricata que fez a alegria das redes sociais, mas que é cercada de todo o luxo que tem e não tem direito, bancado adivinha por quem?
Se não deu certo pela via reconhecidamente democrática, do voto, passar uma borracha na escolha não será mais promissor. Os culpados são eles ou nós?
A esta altura, não importa o lado do muro, quem colocou ou quem quer tirar. No jogo ardiloso que nos trouxe até aqui, todos saímos perdedores. Para você que também desperdiçou o seu voto anos a fio, aquele abraço.
No trânsito, a crise é de conduta
Coluna Releitura - 12/04/2016
No trânsito, a crise é de conduta
Daíza Lacerda
A vítima não conseguia conter o desespero, que ainda era maior que o alívio. Consolada por quem estava mais perto, tentava descrever a tênue linha do "quase" a algum conhecido, por telefone. Na cena, dois carros destruídos numa avenida movimentada pelos veículos e pelas pessoas. Nenhuma vítima grave. Mais inexplicável do que a colisão não ter terminado em tragédia pior é o fato dela ter sido causada. Um terceiro bateu em dois carros, em alta velocidade, em ocorrência publicada ontem na Gazeta. Com que coragem colocar o pé na rua se um veículo pode aparecer, do nada, a toda?
E não importa o número de rodas. Reportagem da jornalista Érica Samara, deste sábado, traz o balanço do primeiro trimestre do Samu, que registrou alta nos atendimentos envolvendo motociclistas. Uma das causas atribuídas à preferência da moto é a crise, por proporcionar mais economia. Mas essa motivação é muito anterior à piora da situação econômica. O problema não é a crise que cerca as variáveis de aquisição os veículos. É aquela que domina os condutores.
O clássico desenho do Pateta no trânsito (https://youtu.be/RMZ3bsrtJZ0) ainda é o que melhor representa a fúria que domina tanta gente quando se está atrás de um volante, ou guidão. Mas os outros é claro. Nós? Jamais. Todos sempre têm na ponta da língua um caso de abuso ou região perigosa. Mas poucos ousam reconhecer suas falhas ou mesmo refletir sua própria conduta quando está no lugar do Pateta. Com crise ou sem, a frota ainda é imensa, e a paciência, minúscula, assim como as vias para abrigar tantas máquinas guiadas com sangue nos olhos.
Se a perda da vida não for um bom motivo, qual argumento usar? Sofrer um acidente, mesmo sem gravidade, muda a nossa visão. Mas, passados alguns meses, o excesso de confiança está lá, com carga completa. Uma fina aqui, uma acelerada ali e está tudo bem. Nisso, quanta gente encontrou o caminho da morte na economia de segundos?
O trânsito é o melhor reflexo da nossa sociedade. Individualista. Não se compartilha, mas se apossa. Talvez os males fossem reduzidos à metade se os protagonistas se dispusessem a trabalhar os seus vícios. Não de ir mais rápido ou devagar, mas na toada que não atropele e nem atrase desnecessariamente ninguém. De que adianta onda verde no semáforo, se dos 10 segundos abertos o motorista leva 5 para sair do lugar? Para que demarcação de faixa se tanta gente usa as duas e mata um espaço e agilidade de tráfego preciosos? Nossa razão aqui é a falta no próximo quarteirão.
Com a tal da linha de produção, Henry Ford deu a faísca para uma explosão. A geração que jamais veria a transformaria num desafio urbano sem precedentes. Em sua esperteza, perpetuou também que o vilão não é a sua criação, mas a criatura que se dispõe a domá-la. A não ser que um raio ou árvore atinja um veículo, nenhuma acidente acontece. Todos são provocados pelo fator humano. Isso abrange tanto o descaso de autoridades para oferecer vias mais seguras quanto a imprudência na direção e negligência com a manutenção por parte do motorista. Enquanto não se alcançar senso e ações de comunidade, o desespero da vítima de ontem pode ser o meu ou o seu amanhã.
Publicado na Gazeta de Limeira.
No trânsito, a crise é de conduta
Daíza Lacerda
A vítima não conseguia conter o desespero, que ainda era maior que o alívio. Consolada por quem estava mais perto, tentava descrever a tênue linha do "quase" a algum conhecido, por telefone. Na cena, dois carros destruídos numa avenida movimentada pelos veículos e pelas pessoas. Nenhuma vítima grave. Mais inexplicável do que a colisão não ter terminado em tragédia pior é o fato dela ter sido causada. Um terceiro bateu em dois carros, em alta velocidade, em ocorrência publicada ontem na Gazeta. Com que coragem colocar o pé na rua se um veículo pode aparecer, do nada, a toda?
E não importa o número de rodas. Reportagem da jornalista Érica Samara, deste sábado, traz o balanço do primeiro trimestre do Samu, que registrou alta nos atendimentos envolvendo motociclistas. Uma das causas atribuídas à preferência da moto é a crise, por proporcionar mais economia. Mas essa motivação é muito anterior à piora da situação econômica. O problema não é a crise que cerca as variáveis de aquisição os veículos. É aquela que domina os condutores.
O clássico desenho do Pateta no trânsito (https://youtu.be/RMZ3bsrtJZ0) ainda é o que melhor representa a fúria que domina tanta gente quando se está atrás de um volante, ou guidão. Mas os outros é claro. Nós? Jamais. Todos sempre têm na ponta da língua um caso de abuso ou região perigosa. Mas poucos ousam reconhecer suas falhas ou mesmo refletir sua própria conduta quando está no lugar do Pateta. Com crise ou sem, a frota ainda é imensa, e a paciência, minúscula, assim como as vias para abrigar tantas máquinas guiadas com sangue nos olhos.
Se a perda da vida não for um bom motivo, qual argumento usar? Sofrer um acidente, mesmo sem gravidade, muda a nossa visão. Mas, passados alguns meses, o excesso de confiança está lá, com carga completa. Uma fina aqui, uma acelerada ali e está tudo bem. Nisso, quanta gente encontrou o caminho da morte na economia de segundos?
O trânsito é o melhor reflexo da nossa sociedade. Individualista. Não se compartilha, mas se apossa. Talvez os males fossem reduzidos à metade se os protagonistas se dispusessem a trabalhar os seus vícios. Não de ir mais rápido ou devagar, mas na toada que não atropele e nem atrase desnecessariamente ninguém. De que adianta onda verde no semáforo, se dos 10 segundos abertos o motorista leva 5 para sair do lugar? Para que demarcação de faixa se tanta gente usa as duas e mata um espaço e agilidade de tráfego preciosos? Nossa razão aqui é a falta no próximo quarteirão.
Com a tal da linha de produção, Henry Ford deu a faísca para uma explosão. A geração que jamais veria a transformaria num desafio urbano sem precedentes. Em sua esperteza, perpetuou também que o vilão não é a sua criação, mas a criatura que se dispõe a domá-la. A não ser que um raio ou árvore atinja um veículo, nenhuma acidente acontece. Todos são provocados pelo fator humano. Isso abrange tanto o descaso de autoridades para oferecer vias mais seguras quanto a imprudência na direção e negligência com a manutenção por parte do motorista. Enquanto não se alcançar senso e ações de comunidade, o desespero da vítima de ontem pode ser o meu ou o seu amanhã.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Entre a futilidade e a utilidade
COLUNA RELEITURA - 05/04/2016
Entre a futilidade e a utilidade
Daíza Lacerda
No meio da tarde, na sala de espera do consultório, a TV estava ligada no programa da Sônia Abrão. A pauta nos primeiros dez minutos de espera era sobre se a Joelma estaria se encontrando às escondidas com Chimbinha, com direito a diversas consultas de posts nas redes sociais de pessoas próximas ao suposto ex-casal da banda Calypso. Como uma profissional que se dedica à informação útil e livre de qualquer especulação, fiquei assustada em imaginar a dimensão de telespectadores que passa as tardes se nutrindo de coisas do tipo.
No dia seguinte, no atendimento do laboratório de análises clínicas, havia um painel generoso para os pacientes escolherem o que ler durante a espera. Tinha a edição da Gazeta fresquinha naquela manhã, mas uma mulher preferiu pegar a revista Caras, que estava ao lado. Me perguntei por quê. Talvez já tivesse lido o jornal. Talvez as férias dos famosos sejam mesmo imbatíveis em relação ao que de mais urgente acontece na cidade.
Não é difícil perceber que os jornais estão enxugando, mas as revistas de celebridades aparecem aos montes. A análise da motivação desses públicos merecia algum tipo de estudo sociológico (se é que já não há). Por mais sedutora que seja a imersão temporária no mundo da fama e fortuna, é inevitável a hora de nós, pobres mortais, encararmos a vida real sem o mesmo glamour.
Me pergunto qual o tamanho da parcela de pessoas que estão cansadas demais da política, da violência, das carências, e se refugiam na realidade paralela do bordão que está em alta, da plástica das famosas, da nova namorada do galã ou do barraco da vez. Não me preocupa o gosto, pois os públicos devem ser plurais. O que assusta é a falta de critério para o que se vê e o que se lê. O quanto disso "forma" um cidadão?
Perdeu-se a linha entre o entretenimento e a banalização, num círculo de inutilidades que tomam um tempo precioso e fazem a cabeça das pessoas, o que elas não necessariamente percebem. Quem trabalha com comunicação sabe que dez minutos na TV é uma eternidade. Tempo inestimável para editar uma reportagem especial, sendo que as cotidianas não passam dos dois minutos, se muito. Imagine quanta informação caberia numa tarde inteira em rede nacional, se esse fosse o interesse?
Também não mensuramos o valor do tempo nas redes sociais, tampouco aplicamos o filtro da utilidade no que acessamos do outro lado da tela. Um exemplo foi outra discussão da semana, sobre a barriguinha da Luana Piovani nas fotos de bastidores de seu ensaio para a Playboy. Ela foi julgada por pessoas que devem ter o porcentual de gordura três vezes maior que o dela, mas perdeu-se a oportunidade de analisar que o anormal não é a modelo ter barriga, mas o excesso de edições nervosas que as fotos das famosas são submetidas, praticamente desfigurando gente como a gente. Mas parece que a vida real perde a graça. Bom mesmo é ter uma deusa produzida no Photoshop para servir de parâmetro de beleza, imagino.
Não é pecado nenhum se deixar levar pela ilusão. Mas, na vida real, ela tem um custo, que pode ser muito alto. Porque é o telespectador da Sônia Abrão e o leitor da Caras que também vão escolher gestores em outubro. E, como quem se preocupa com informação sabe, o mundo aqui fora é outro bem diferente daqueles que preenchem a grade televisiva das tardes e as ilhas paradisíacas.
Entre a futilidade e a utilidade
Daíza Lacerda
No meio da tarde, na sala de espera do consultório, a TV estava ligada no programa da Sônia Abrão. A pauta nos primeiros dez minutos de espera era sobre se a Joelma estaria se encontrando às escondidas com Chimbinha, com direito a diversas consultas de posts nas redes sociais de pessoas próximas ao suposto ex-casal da banda Calypso. Como uma profissional que se dedica à informação útil e livre de qualquer especulação, fiquei assustada em imaginar a dimensão de telespectadores que passa as tardes se nutrindo de coisas do tipo.
No dia seguinte, no atendimento do laboratório de análises clínicas, havia um painel generoso para os pacientes escolherem o que ler durante a espera. Tinha a edição da Gazeta fresquinha naquela manhã, mas uma mulher preferiu pegar a revista Caras, que estava ao lado. Me perguntei por quê. Talvez já tivesse lido o jornal. Talvez as férias dos famosos sejam mesmo imbatíveis em relação ao que de mais urgente acontece na cidade.
Não é difícil perceber que os jornais estão enxugando, mas as revistas de celebridades aparecem aos montes. A análise da motivação desses públicos merecia algum tipo de estudo sociológico (se é que já não há). Por mais sedutora que seja a imersão temporária no mundo da fama e fortuna, é inevitável a hora de nós, pobres mortais, encararmos a vida real sem o mesmo glamour.
Me pergunto qual o tamanho da parcela de pessoas que estão cansadas demais da política, da violência, das carências, e se refugiam na realidade paralela do bordão que está em alta, da plástica das famosas, da nova namorada do galã ou do barraco da vez. Não me preocupa o gosto, pois os públicos devem ser plurais. O que assusta é a falta de critério para o que se vê e o que se lê. O quanto disso "forma" um cidadão?
Perdeu-se a linha entre o entretenimento e a banalização, num círculo de inutilidades que tomam um tempo precioso e fazem a cabeça das pessoas, o que elas não necessariamente percebem. Quem trabalha com comunicação sabe que dez minutos na TV é uma eternidade. Tempo inestimável para editar uma reportagem especial, sendo que as cotidianas não passam dos dois minutos, se muito. Imagine quanta informação caberia numa tarde inteira em rede nacional, se esse fosse o interesse?
Também não mensuramos o valor do tempo nas redes sociais, tampouco aplicamos o filtro da utilidade no que acessamos do outro lado da tela. Um exemplo foi outra discussão da semana, sobre a barriguinha da Luana Piovani nas fotos de bastidores de seu ensaio para a Playboy. Ela foi julgada por pessoas que devem ter o porcentual de gordura três vezes maior que o dela, mas perdeu-se a oportunidade de analisar que o anormal não é a modelo ter barriga, mas o excesso de edições nervosas que as fotos das famosas são submetidas, praticamente desfigurando gente como a gente. Mas parece que a vida real perde a graça. Bom mesmo é ter uma deusa produzida no Photoshop para servir de parâmetro de beleza, imagino.
Não é pecado nenhum se deixar levar pela ilusão. Mas, na vida real, ela tem um custo, que pode ser muito alto. Porque é o telespectador da Sônia Abrão e o leitor da Caras que também vão escolher gestores em outubro. E, como quem se preocupa com informação sabe, o mundo aqui fora é outro bem diferente daqueles que preenchem a grade televisiva das tardes e as ilhas paradisíacas.
Um botão do respeito pelo botão do pânico
COLUNA RELEITURA - 29/03/2016
Um botão do respeito pelo botão do pânico
Daíza Lacerda
A mulher de 44 anos foi encontrada ensanguentada, no chão da própria casa, após ter sido espancada pelo marido com um cabo de vassoura. O repórter Denis Martins contou a história de terror da vida real na última semana, que terminou com o agressor preso e a vítima socorrida. Seria este um final feliz?
É difícil imaginar como uma pessoa que se escolhe para compartilhar a vida se torna uma ameaça dentro de casa. E, em tempos de empoderamento feminino e conscientização dos próprios direitos, a violência doméstica ainda se alastra de forma surpreendente. Viram os séculos, mas o homem ainda se acha no direito de ser dono de alguém. Até quando?
Por mais numerosos que sejam os casos, ainda é desconhecida a dimensão do inferno que tantas mulheres ainda vivem em seus "lares". São histórias que raramente vêm a público, principalmente para preservação da própria vítima. Mas algumas, quando conseguem se libertar do ciclo de violência, dividem suas dores e esperanças. É o que fez uma argentina casada com um brasileiro e que viveu em cárcere privado no Rio de Janeiro. Em depoimento à Folha de São Paulo (http://bit.ly/1MwhE9X), ela contou como a filha de 13 anos a salvou da prisão, chamando a polícia. Coagida, afirmou que estava tudo bem, num primeiro momento. Com a insistência dos policiais, não desperdiçou a chance criada pela filha e pôs a limpo toda a violência vivida em quatro anos.
Muitas vezes, mesmo sob proteção, o mal ainda cerca. E é para esses casos que Limeira terá como recurso o botão do pânico, um socorro imediato para vítimas de agressores insistentes. Embora bem-vinda como mais uma forma de garantia de proteção, não deixa de ser absurda a necessidade de criar mais recursos contra quem deve receber punição de uma vez por todas.
Felizmente, as mulheres têm serviços aos quais recorrer quando estão determinadas a vencer o medo. No entanto, até que ponto isso torna agressores mais conscientes? Por quê essa incidência não para? Por quê homens ainda continuam violentando suas próprias crianças e esposas dentro de casa? Será impunidade? Excesso de confiança? Ou uma patologia que a ciência ou razão ainda não sabem combater?
Não são só direitos de mulheres em questão, mas direitos humanos. O que sobra quando se perde o respeito? A origem da violência pode ser imperceptível. O que começa com piadinhas machistas levadas na brincadeira podem se tornar um atestado de posse na cabeça de quem não está alinhado com a realidade dos direitos e deveres.
Claro, ainda há o álcool e drogas, que também levam a culpa na tentativa de isentar ou minimizar a barra de quem solta as feras sobre indefesos. Ciúmes, problemas conjugais, não importa a situação: nunca será o bastante para justificar agressões.
Estamos em tempos nos quais as pessoas são panelas de pressão ambulantes. É mais fácil recorrer à bebida do que ao diálogo, ao grito do que ao silêncio. Não haveria botões do pânico suficientes para dar conta da intolerância de todos os tipos. Realidade de quem pensa viver na "civilização". Um lugar que, depois que se perde o respeito, a luta é para não perder a vida.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Um botão do respeito pelo botão do pânico
Daíza Lacerda
A mulher de 44 anos foi encontrada ensanguentada, no chão da própria casa, após ter sido espancada pelo marido com um cabo de vassoura. O repórter Denis Martins contou a história de terror da vida real na última semana, que terminou com o agressor preso e a vítima socorrida. Seria este um final feliz?
É difícil imaginar como uma pessoa que se escolhe para compartilhar a vida se torna uma ameaça dentro de casa. E, em tempos de empoderamento feminino e conscientização dos próprios direitos, a violência doméstica ainda se alastra de forma surpreendente. Viram os séculos, mas o homem ainda se acha no direito de ser dono de alguém. Até quando?
Por mais numerosos que sejam os casos, ainda é desconhecida a dimensão do inferno que tantas mulheres ainda vivem em seus "lares". São histórias que raramente vêm a público, principalmente para preservação da própria vítima. Mas algumas, quando conseguem se libertar do ciclo de violência, dividem suas dores e esperanças. É o que fez uma argentina casada com um brasileiro e que viveu em cárcere privado no Rio de Janeiro. Em depoimento à Folha de São Paulo (http://bit.ly/1MwhE9X), ela contou como a filha de 13 anos a salvou da prisão, chamando a polícia. Coagida, afirmou que estava tudo bem, num primeiro momento. Com a insistência dos policiais, não desperdiçou a chance criada pela filha e pôs a limpo toda a violência vivida em quatro anos.
Muitas vezes, mesmo sob proteção, o mal ainda cerca. E é para esses casos que Limeira terá como recurso o botão do pânico, um socorro imediato para vítimas de agressores insistentes. Embora bem-vinda como mais uma forma de garantia de proteção, não deixa de ser absurda a necessidade de criar mais recursos contra quem deve receber punição de uma vez por todas.
Felizmente, as mulheres têm serviços aos quais recorrer quando estão determinadas a vencer o medo. No entanto, até que ponto isso torna agressores mais conscientes? Por quê essa incidência não para? Por quê homens ainda continuam violentando suas próprias crianças e esposas dentro de casa? Será impunidade? Excesso de confiança? Ou uma patologia que a ciência ou razão ainda não sabem combater?
Não são só direitos de mulheres em questão, mas direitos humanos. O que sobra quando se perde o respeito? A origem da violência pode ser imperceptível. O que começa com piadinhas machistas levadas na brincadeira podem se tornar um atestado de posse na cabeça de quem não está alinhado com a realidade dos direitos e deveres.
Claro, ainda há o álcool e drogas, que também levam a culpa na tentativa de isentar ou minimizar a barra de quem solta as feras sobre indefesos. Ciúmes, problemas conjugais, não importa a situação: nunca será o bastante para justificar agressões.
Estamos em tempos nos quais as pessoas são panelas de pressão ambulantes. É mais fácil recorrer à bebida do que ao diálogo, ao grito do que ao silêncio. Não haveria botões do pânico suficientes para dar conta da intolerância de todos os tipos. Realidade de quem pensa viver na "civilização". Um lugar que, depois que se perde o respeito, a luta é para não perder a vida.
Publicado na Gazeta de Limeira.
Os radicais não são livres
COLUNA RELEITURA - 22/03/2016
Os radicais não são livres
Daíza Lacerda
A foto de dois homens (um pró e outro anti governo) se agredindo em plena avenida Paulista já seria o bastante. Mas os inúmeros relatos de pessoas sendo machucadas e hostilizadas devido a posições políticas (não necessariamente expressas) são assustadores. Muita gente coloca a máscara do civismo para protestar na rua e pedir justiça, mas sustenta atos atacando e desrespeitando quem pensa diferente. Nunca antes na história deste país, como na última semana, o livre direito da expressão e opinião foi tão maculado. Talvez uma parcela esteja colocando em ação o anseio de retomada da ditadura militar. É o que parece quando só a própria convicção é que interessa, e os outros que se adequem ou sumam. Não é?
O festival de ataques e xingamentos vitimam até mesmo quem não quer entrar no fogo cruzado. A intolerância é um pavio que explode diante das cores que as pessoas usam, ou daqueles que usufruem de obras que um ou outro gestor fez. E por que todo mundo é obrigado a ter ou a expor um posicionamento? E daí se há quem queira ficar em cima do muro?
O problema não é a questão do posicionamento, mas do respeito. Quer cobrar o que na rua o "cidadão" que, para se impor, abusa das agressões verbais e físicas? Pode até parecer ingenuidade idealizar a paz num cenário de guerra em erupção. Mas esses eventos de intolerância só mostram que boa parte do povo não consegue ser melhor do que os responsáveis pelos males que eles dizem querer combater.
Não há como negar que o governo e o Judiciário forçam a amizade, cada um ao seu modo, o que até agora só serviu para acirrar a discórdia e chegar a conclusão nenhuma de efetivos culpados. Que é, de fato, o que interessa, por trás do show.
Não sabia se ria ou se chorava diante da chamada de um artigo do Jornal Nexo: "Como discutir política no almoço deste domingo e continuar na família" (http://bit.ly/1Ra1ke2). Na matéria, é considerada a análise de Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, que avalia que "o clima de expectativa sobre se o governo atual continuará ou não no comando e o debate sobre se a Justiça e o Congresso estão recorrendo a um vale-tudo têm feito com que as pessoas encarem quem discorda como um obstáculo à concretização daquilo que acreditam ser o melhor cenário - nesse caso, a permanência ou queda do governo". Então, como fica se cada um tratar alguém de posição distinta como um rival, um inimigo? E se esse respeito não existir nem entre familiares?
É claro que as pessoas são movidas por convicções. Afinal, são elas que nos moldam. Mas, quando se transformam em fanatismo, não há nada de construtivo, como a História não cansa de nos mostrar. O radicalismo, pior ainda. A História também tem exemplos, indigestos, daqueles que tinham certeza de que eram donos da verdade e que valia tudo até as últimas consequências para impor a sua ideia de mundo.
Falta a muita gente que esbraveja um pingo de humildade para reconhecer a complexidade do caldeirão Brasil, com variáveis que fogem do nosso conhecimento e, principalmente, da nossa análise. Afinal, ninguém é dono da verdade.
Já é difícil o bastante estar preso numa teia de variáveis que não depende de nós, como regras da economia e surpresas da própria política. Mas triste mesmo deve ser tornar-se escravo de uma convicção, viver (?) acorrentado a uma ideologia.
Os radicais não são livres
Daíza Lacerda
A foto de dois homens (um pró e outro anti governo) se agredindo em plena avenida Paulista já seria o bastante. Mas os inúmeros relatos de pessoas sendo machucadas e hostilizadas devido a posições políticas (não necessariamente expressas) são assustadores. Muita gente coloca a máscara do civismo para protestar na rua e pedir justiça, mas sustenta atos atacando e desrespeitando quem pensa diferente. Nunca antes na história deste país, como na última semana, o livre direito da expressão e opinião foi tão maculado. Talvez uma parcela esteja colocando em ação o anseio de retomada da ditadura militar. É o que parece quando só a própria convicção é que interessa, e os outros que se adequem ou sumam. Não é?
O festival de ataques e xingamentos vitimam até mesmo quem não quer entrar no fogo cruzado. A intolerância é um pavio que explode diante das cores que as pessoas usam, ou daqueles que usufruem de obras que um ou outro gestor fez. E por que todo mundo é obrigado a ter ou a expor um posicionamento? E daí se há quem queira ficar em cima do muro?
O problema não é a questão do posicionamento, mas do respeito. Quer cobrar o que na rua o "cidadão" que, para se impor, abusa das agressões verbais e físicas? Pode até parecer ingenuidade idealizar a paz num cenário de guerra em erupção. Mas esses eventos de intolerância só mostram que boa parte do povo não consegue ser melhor do que os responsáveis pelos males que eles dizem querer combater.
Não há como negar que o governo e o Judiciário forçam a amizade, cada um ao seu modo, o que até agora só serviu para acirrar a discórdia e chegar a conclusão nenhuma de efetivos culpados. Que é, de fato, o que interessa, por trás do show.
Não sabia se ria ou se chorava diante da chamada de um artigo do Jornal Nexo: "Como discutir política no almoço deste domingo e continuar na família" (http://bit.ly/1Ra1ke2). Na matéria, é considerada a análise de Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, que avalia que "o clima de expectativa sobre se o governo atual continuará ou não no comando e o debate sobre se a Justiça e o Congresso estão recorrendo a um vale-tudo têm feito com que as pessoas encarem quem discorda como um obstáculo à concretização daquilo que acreditam ser o melhor cenário - nesse caso, a permanência ou queda do governo". Então, como fica se cada um tratar alguém de posição distinta como um rival, um inimigo? E se esse respeito não existir nem entre familiares?
É claro que as pessoas são movidas por convicções. Afinal, são elas que nos moldam. Mas, quando se transformam em fanatismo, não há nada de construtivo, como a História não cansa de nos mostrar. O radicalismo, pior ainda. A História também tem exemplos, indigestos, daqueles que tinham certeza de que eram donos da verdade e que valia tudo até as últimas consequências para impor a sua ideia de mundo.
Falta a muita gente que esbraveja um pingo de humildade para reconhecer a complexidade do caldeirão Brasil, com variáveis que fogem do nosso conhecimento e, principalmente, da nossa análise. Afinal, ninguém é dono da verdade.
Já é difícil o bastante estar preso numa teia de variáveis que não depende de nós, como regras da economia e surpresas da própria política. Mas triste mesmo deve ser tornar-se escravo de uma convicção, viver (?) acorrentado a uma ideologia.
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