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terça-feira, 17 de maio de 2016 | By: Daíza de Carvalho

Botão do Pânico é lançado em meio à alta de medidas protetivas

Só neste ano, 280 medidas foram autorizadas pelo Judiciário, enquanto 2015 teve 409 casos

Daíza Lacerda

"Só peço que os filhos ouçam quando uma mãe pede para ter cuidado. Conselho de mãe vem de dentro. O Botão do Pânico não trará a minha filha de volta, mas traz um acalento ao meu coração". As palavras são de Therezinha Furlan Munhoz, de 63 anos, mãe de Priscila Munhoz, que foi assassinada aos 26 anos pelo ex-namorado, em 2013. Priscila dá o nome para o programa de proteção que agora conta com o Botão do Pânico, um último recurso na tentativa de salvar a vida de mulheres vítimas de violência. Lançado oficialmente ontem, o dispositivo, quando acionado, emite áudio da conversa e localização da vítima a smartphones que estarão com GCMs, sendo que a viatura mais próxima socorrerá a vítima.
Assim como Priscila tinha, à época de suas ameaças e morte, 280 mulheres tiveram medidas protetivas autorizadas pela Justiça neste ano, até a última sexta. Em pouco mais de quatro meses, a quantidade supera a metade de todas as medidas autorizadas em 2015. Foram 409, em meio a 1.360 inquéritos policiais da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Limeira, que envolvem mulheres vítimas de violência doméstica. Ainda assim, um caso de homicídio contra mulher foi registrado em 2015 e um em 2016.
Num mês "tranquilo", são autorizadas no mínimo 60 medidas, conforme o juiz da 2ª Vara Criminal, Luiz Augusto Barrichello Neto. Normalmente, a média é de 5 a 6 por dia, sendo que já chegaram a ser autorizadas 11 num dia. Entre os tipos de proteção, há aquela que decreta o afastamento do agressor do lar, a proibição de se aproximar da vítima quando já está afastado e também a proibição de frequentar determinados lugares. No caso de descumprimento, são tomadas medidas cautelares, como a prisão preventiva.
Num cenário em que os casos só aumentam, estatísticas mostram relação inclusive com a situação econômica atual e o desemprego. Conforme Barrichello, a incidência varia conforme a época, a exemplo de feriados prolongados, mas foi constatado aumento dos casos com o avanço da crise. Para ele, o Botão do Pânico terá caráter pedagógico. "Sabendo que haverá consequência rápida, os agressores pensarão mais de uma vez antes de cometer o ato de violência. É uma ferramenta que ajuda não só a vítima, mas o Judiciário e a Polícia, facilitando a aplicação de medidas e evitando tragédias", considera.
A delegada Andréa Arnosti, da DDM, informa que são lavrados no mínimo 30 boletins de ocorrência diariamente, em causas como lesão e ameaça. A maioria é praticada no âmbito doméstico. Outro número considerado elevado é o de estupro. Foram registrados 101 casos em Limeira em 2015, e 34 casos de janeiro até agora. Das vítimas, a maioria solicita medidas protetivas, conforme a delegada.
PIONEIRISMO E UNIÃO
Limeira é o primeiro município no Estado a adotar o dispositivo, sendo que, em outras cidades, a proposta esbarra no vício de iniciativa, o que também ocorreu no histórico limeirense. A vereadora Érika Tank foi autora da lei inicial, mas o projeto teve de ser apresentado pelo Executivo, o que foi feito.
Quem atentou ao entrave Estado afora foi Rosmary Corrêa, delegada e presidente do Conselho Estadual da Condição Feminina. "São necessários mais prefeitos sensíveis à causa. O Brasil é o 5º país no mundo em números de assassinato de mulheres. O Botão do Pânico talvez não impeça, mas reduzirá muito qualquer tipo de assassinato de mulheres. É uma nova arma na luta contra a violência".
A sintonia entre diversos órgãos, com o interesse da Prefeitura, Câmara, Ceprosom, Segurança Pública, Polícia e Judiciário, foi citado como primordial para que o projeto saísse do papel. Para a vereadora Érika Tank, o dispositivo mostra a "necessidade real no abafar de cada voz", em situações "que não podem ser rebaixadas como crimes passionais".
Já o prefeito Paulo Hadich disse que a efetividade do dispositivo é o que segue ao acionamento, com a reação imediata e o trabalho em rede que envolve a assistência social. "Até termos a necessidade do dispositivo, uma série de medidas anteriores falharam. Este é um último recurso, possível porque todos se envolveram, em suas esferas de atuação".


Simulações "às escuras" garantiram socorro em 4 minutos

O trabalho que começou há anos com a formulação da atual Rede Elza Tank de Atendimento Integrado à Mulher em Situação de Violência culminou, nas últimas semanas, com o teste de sua eficácia. A presidente do Ceprosom, Ana Maria Sampaio, explicou que os próprios servidores participaram de simulações do uso do botão, necessárias para corrigir dinâmicas do fluxo de atendimento. Os testes tinham aval do secretário de Segurança Pública, Maurício Miranda Queiroz, mas os agentes desconheciam que se tratava de uma simulação. Num dos casos, não demoraram quatro minutos até que a viatura mais próxima chegasse para o socorro do caso simulado. São consideradas variáveis como o horário, e a equipe mais próxima disponível, que pode estar de carro ou moto, mais ágil.
A compra do dispositivo foi feita pelo Ceprosom, em contrato anual com o custo de R$ 162.451,20. A prorrogação pode ser feita até 60 meses sem que seja necessário outro processo. A aquisição é de 50 botões, quantidade mínima oferecida pelas empresas consultadas e considerada como ideal para o início da experiência em Limeira.
O Botão do Pânico será concedido com aval do Judiciário, que encaminhará a solicitação ao Ceprosom. A vítima fará um cadastro no Centro de Referência em Assistência Social (Cras), seguido do acompanhamento psicossocial. A situação será monitorada para avaliação no município. A mulher também receberá uma espécie de treinamento para uso do dispositivo, além de orientações para dificultar abordagens e aumentar a própria proteção.
A expectativa é ainda melhor com o anexo judicial de violência contra a mulher, anunciado na última semana. "Já estamos fazendo reuniões da Rede nos territórios dos Cras para discutir casos". (Daíza Lacerda)


Publicado na Gazeta de Limeira. Original em pdf aqui.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011 | By: Daíza de Carvalho

Rapaz ataca ônibus, ameaça motorista e quase fere jovem

Daíza Lacerda


Seria mais um itinerário normal no fim da tarde de ontem para o motorista V.J.S., 42, da linha 02-Belinha Ometto, antes de o ônibus que dirigia ser atacado por um rapaz, no Centro. "Estava saindo do ponto atrás da Catedral, e ele chegou chutando e batendo na porta", explicou. Diante da atitude, ele preferiu não abrir a porta e seguiu viagem. "É preciso ter respeito. Mas, como não parei, ele disse que me encontraria no ponto final para me matar", relatou o motorista.
Não contente, o rapaz, identificado apenas como de pele morena e aparentando ter 25 anos, correu atrás do coletivo e atirou uma pedra no vidro traseiro na parada do ponto seguinte, em frente à escola Brasil. Com isso, o motorista parou o carro no quarteirão seguinte. Os estilhaços caíram sobre uma jovem de 14 anos, que estava em assento abaixo do vidro no local atingido. Ainda assustada e chorando, a menina disse que não estava acompanhada e iria para a sua casa. Diante da ocorrência, aguardou um familiar ir buscá-la. Ela não chegou a ficar ferida.
O acusado foi reconhecido também como frequentador dos arredores da escola Sesi, no Morro Azul, e seria morador do Parque Residencial Belinha Ometto.

INSEGURANÇA
O motorista estima que pelo menos 50 passageiros estavam no coletivo. Ele chegou a chamar a polícia, mas deixou o local após cerca de meia hora de espera, para levar o carro à garagem da empresa e fazer o boletim de ocorrência. Ele declarou não se sentir ameaçado pelo atacante, mas teme pela segurança no seu dia a dia profissional. "Está difícil trabalhar sério. Precisamos de segurança para trabalhar, e também para oferecer a quem usa o transporte", pondera.
A cobradora também se preocupa com o vandalismo. "Poderia ser eu ferida, se tivesse jogado na janela. Temos medo e agora fica a insegurança", diz.



domingo, 27 de fevereiro de 2011 | By: Daíza de Carvalho

Insegurança em escolas preocupa pais e moradores; cresce procura pela GM

Carlos Gomide
Daíza Lacerda

A Guarda Municipal de Limeira, por meio do Pelotão Escolar, recebe em média 10 ligações diárias de pais solicitando segurança em portas de escolas. Para a inspetora Rita de Cássia Florêncio, responsável pelo grupamento, esse número aumentou em 2011, se comparado à média diária de 2010.

As ligações são feitas à base do grupamento e ao Centro de Operações da Guarda Municipal (COP), normalmente em horários da saída do período diurno. A maioria dos casos são pais de alunos que se sentem preocupados com a presença de pessoas estranhas na porta dos estabelecimentos de ensino do município, tanto da rede municipal, quanto da estadual.
A grande aglomeração de pessoas nas portas das escolas também gera reclamação de vizinhos, que se sentem incomodados com adolescentes que tomam as calçadas, e as bicicletas lideram o ranking de reclamações. "O que tem de adolescente que vai de bicicleta e motos para a porta das escolas ficar matando o tempo, não é brincadeira!", exclamou a agente que acredita que seria interessante criar um mecanismo para apreender bicicletas de procedência desconhecida. Na última operação feita há cerca de 10 dias, um adolescente foi surpreendido conduzindo uma moto sem documento.
A maioria das solicitações são de brigas entre alunos. Um fato que, segundo a inspetora, chama a atenção é que a maioria das brigas envolve meninas, e o motivo é sempre o mesmo: namorado. O Pelotão Escolar conta hoje com 11 agentes para fiscalizar as cerca de 90 escolas do município. Mesmo com o número pequeno de agentes, as rondas são feitas diariamente. "Temos de nos redobrar e às vezes pedir apoio a viatura do setor", disse a inspetora.
Rita explicou que há diferentes tipos de ocorrências; aquelas que são possíveis resolver no local, - como uma briga, por exemplo - e aquelas que precisam ser enviadas à delegacia de polícia, pois envolvem crimes.

INTERIOR

A corporação também interfere, quando solicitada, no interior do estabelecimento. Nesta semana, um adolescente de 12 anos foi pego dentro da Escola Estadual Mário Covas com uma faca. Na semana passada, a Gazeta mostrou um caso de outro aluno, que pulou o muro da Escola Dom Idílio José Soares, trazendo consigo uma réplica de pistola.
Em ambos os casos, os jovens foram levados às delegacias onde os casos foram registrados, o objeto apreendido e os alunos entregues aos responsáveis.

Medo toma conta da vizinhança da escola Gabriel Pozzi

Pichações, lixo jogado e ameaças preocupam os moradores da Rua Cesariano Ferreira, na Vila Piza, em frente da EE Gabriel Pozzi. A aglomeração de jovens, inclusive os que não são alunos, tem aumentado a insegurança.
Uma moradora relata que, além da pichação feita em seu muro na sexta-feira passada, jovens reviraram o lixo em seu portão. Depois de sair para ver o que estava acontecendo, os jovens, na faixa dos 16 anos, começaram a dar pontapés no portão e a xingá-la, gritando. “Moro no bairro há nove anos e o problema é frequente, mas se acentuou com o início das aulas. Procurei a polícia e tive que ouvir que deveria fazer um abaixo-assinado para aumentar a ronda na rua, mesmo pagando todos os impostos que pago para ter segurança”, desabafa.
Outro morador conta que é comum jovens enrolando baseados em plena luz do dia, em frente à escola, além de meninas brigando após o fim das aulas. “É um problema. Precisamos de ronda mais ostensiva. Marmanjos ficam ao redor quando alunos saem, jogando pacotes. Coisa boa é que não deve ser”, observa.
Os moradores acentuam ainda o desrespeito dos alunos com o prédio, usado por eles próprios, já que a escola está com a fachada, inclusive o muro, pichados. Os vizinhos ouvem vidros sendo quebrados dentro da escola. “O pior é que se vamos tirar satisfação, somos ameaçados. Isso é falta de educação familiar e a bomba estoura na escola. Os pais acham que a escola tem de educar, mas é papel deles ensinar valores”, declara outro morador.
A Polícia Militar foi questionada sobre a frequência das rondas e que medidas podem ser tomadas diante da situação, mas não houve resposta até o fechamento desta edição.


Moradores reclamam de falta de segurança em porta de escola Gabriel Pozzi, na Vila Piza
Moradores reclamam de falta de segurança em porta de escola Gabriel Pozzi, na Vila Piza

Publicado na Gazeta de Limeira


domingo, 13 de fevereiro de 2011 | By: Daíza de Carvalho

Nova tentativa de homicídio por ciúmes deixa dois baleados


Daíza Lacerda

Mais um caso de violência causada por ciúmes foi registrado na noite de anteontem. Desta vez, teve um preso e quase duas mortes. A ocorrência foi em um bar do Jardim Nova Suíça.
O lavrador C.L.S., 63, foi preso em flagrante por tentativa de homicídio após atirar contra a ourives L.M.D., 31. Ele acertou L. no abdome e uma segunda vítima na cabeça, o frentista C.A.S., 52, que frequentava o local no momento. A ourives estava acompanhada da auxiliar de limpeza R.M.A.S, 49, que não foi atingida.
O acusado, que estaria há meses ameaçando L., chegou ao bar pouco antes das 22h. Ele, segundo informações do boletim de ocorrência, manteve relação extraconjugal com ela durante alguns meses, até a vítima terminar o relacionamento. Quando a ourives viu o ex chegar, pediu que fosse embora, então o lavrador sacou um revólver calibre 32. Uma terceira pessoa tentou intervir, mas o acusado atirou na direção de L. e R., acertando, além da ex, o frentista.
O acusado fugiu por um terreno baldio, próximo do estabelecimento, onde foi localizado e detido com a arma do crime, com dois cartuchos, dos seis disponíveis, usados, além das munições que trazia no bolso.
C. confessou a tentativa e informou que a decisão de matar a vítima foi tomada por ciúmes, ao saber que ela estaria namorando. A arma do crime teria sido adquirida na noite do atentado. As vítimas foram socorridas na Santa Casa. O frentista estava com quadro clínico estável e L. foi submetida a procedimentos cirúrgicos e continua internada.

Publicado na Gazeta de Limeira.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 | By: Daíza de Carvalho

Inconformado com separação, ex-marido tenta matar mulher, rapaz e criança


Daíza Lacerda

Relação afetiva mal resolvida pode ter sido o motivo que terminou com três novas vítimas em Limeira, ontem. Um acidente na Rua Marechal Floriano Peixoto, no Parque Hipólito, deixou três feridos após um carro bater em um casal e duas crianças que passavam pela calçada.

Batida terminou com três vítimas, entre elas uma criança; motorista estaria alcoolizado
Batida terminou com três vítimas, entre elas uma criança; motorista estaria alcoolizado


Segundo testemunhas, o motorista do Pointer placas GTI-0457, de Limeira, J.J.S, 37, teria dirigido o carro propositadamente contra as vítimas, uma delas sua ex-exposa, além de um rapaz, que seria o companheiro atual dela e uma criança. Ele foi preso em flagrante, por tripla tentativa de homicídio. O acusado estaria alcoolizado durante o atentado. As vítimas foram socorridas na Santa Casa.
O vendedor J.D.F, 55, que estava próximo do local no momento do incidente, contou que só ouviu o baque do carro e os gritos, enquanto populares tentavam socorrer a mulher e o rapaz, que estava ensanguentado. “Quase houve tentativa de linchamento ao motorista, até a viatura chegar”, declarou ele, que não conhece as vítimas.
De acordo com o balconista L.J.S., 39, irmão do motorista do carro, o casal está separado há três anos, depois de 15 casados. J. ainda não teria se conformado com a separação. Segundo o irmão, a família o aconselhava a deixar a questão de lado, de uma vez por todas. Os dois moram no mesmo bairro.
Antes de ser levado para fazer exame de sangue, o acusado alegou em depoimento que o atropelamento teria sido devido a um problema no freio carro, conforme informou o PM Edson. Segundo uma testemunha, que trabalhava no segundo andar de uma fábrica localizada na rua onde tudo aconteceu, J. declarou que nunca iria aceitar a separação e que a intenção era mesmo a de matar a ex-mulher. “Ele dizia que foi traído e queria se vingar. Na hora a mãe só gritava pela filha e o outro filho não desgrudava dela. Foi terrível”, disse.
Ela explicou que, no momento, o casal estava com duas crianças, uma de três anos, que teria tido escoriações na cabeça e pernas, e outro garoto de seis anos, que não se feriu. Uma das crianças não é filha do acusado. O rapaz também teve ferimentos mais graves na cabeça e perna, e a mulher teve fratura exposta no pé, segundo a testemunha.
O casal separado tem ainda uma filha de 15 anos. Segundo a testemunha, esta filha teria confirmado que as ameaças do pai à mãe eram frequentes. O caso foi registrado no plantão policial do delegado William Marchi.

Publicado na Gazeta de Limeira, também na capa.


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011 | By: Daíza de Carvalho

Da agressão ao assassinato, psicólogas avaliam o caminho às tragédias em família

Daíza Lacerda

O número de casos de homicídio e tentativa cometidos por maridos e ex-maridos contra suas companheiras registrados nas últimas semanas em Limeira se mostram como um alerta das consequências da intolerância nos relacionamentos e dentro dos lares (ou do que deveria ser um). 

Em novembro passado, um metalúrgico se enforcou após matar a esposa, no Jardim Nova Suíça. O ano de 2010 foi encerrado com a morte de uma ourives no Jardim Esmeralda, cujo principal suspeiro, foragido, é o companheiro da vítima. A tragédia se repetiu nesta semana no Parque Residencial Abílio Pedro, em que um pedreiro se matou, possivelmente envenenado, após atirar seis vezes na ex-esposa, que permanecia em estado grave até o fechamento desta edição
As psicólogas Solange Dantas e Maria Rita Lemos explicaram o que pode levar a pessoa a chegar no extremo de um assassinato. "A pessoa que é violenta, não ama. Às vezes as mulheres não levam ameaças e agressões à sério, na ambivalência entre amor e ódio, o que é muito perigoso", diz Maria Rita, citando os riscos que podem existir para os que pensam como descreve a música que virou bordão: "Você não vale nada mas eu gosto de você". Quem quer se proteger, chega a mudar de cidade para se prevenir de desfechos trágicos, afirma.

SEM LIMITES PARA MATAR
A falta de limites desde a infância pode ser a consequência para um adulto que não aceita um "não" e se dispõe a passar dos limites para conseguir o que quer, atenta Solange. "Crianças assim podem se tornar adultos que não sabem lidar com a frustração, como um relacionamento que acaba. A relação fica doentia com o ciúme, muitas vezes em amabas as partes", diz.
Solange lembra que na maioria das vezes a situação do casal vem se agravando, como quando um perde o interesse e o outro não aceita, disposto a matar e morrer - para que a companheira não possa ficar com nenhuma outra pessoa que não ele e para fugir da punição pela morte. "O sentimento de que 'se não ficar comigo não ficará com mais ninguém' não leva em consideração nem mesmo os filhos", salienta.
Maria Rita endossa, lembrando que quem começa matando é psicopata. Senão, sempre existem sinais de alerta. "A pessoa é submetida a gritos, humilhação e proibições, muitas vezes com um ciúme infundado. A mulher não pode ficar em silêncio", enfatiza.

SALVANDO A PELE (E A FAMÍLIA)
O relacionamento doentio começa a mostrar traços na agressão verbal, que se torna física, até o "embate" entre as partes que pode se tornar mais grave. "É por isso que o bom senso é o melhor remédio, não se deve 'bater boca' na hora do nervoso. O melhor é deixar para conversar depois e não provocar", aconselha Solange.
Ela diz que muitas pessoas vão alimentando a situação de um relacionamento doentio, sem buscar ajuda. E os sinais que parecem inocentes também pressupõem riscos. "Às vezes os pais acham bonito o filho ter ciúmes da namorada, ficar bravo quando ela não avisa de algo e ligar várias vezes ao dia querendo satisfação, mas esses são indícios de que algo está errado. Não é normal". O mesmo pode ser observados em meninas, como nas brigas na escola, também motivadas por paixões, exemplifica.
Embora em muitos casos a falta de providência não seja só da mulher, mas das autoridades (como no caso do goleiro Bruno, em que Eliza Samudio já havia registrado vários boletins de ocorrência), Maria Rita lembra que há vários amparos legais, tanto em âmbito municipal como federal. Quando a tentativa de sociabilidade não dá resultado, Delegacia da Mulher, Lei Maria da Penha e abrigos sociais são algumas das possibilidades de proteção contra agressores e assassinos em potencial.

META A COLHER
Maria Rita lembra que o ato de tentar conseguir reaver o amor perdido é pré-histórico, devido à forte resistência contra a frustração que chega ao uso da força bruta. E, neste contexto, ela defende que o velho ditado de que "em briga de marido e mulher não se mete a colher" perde a validade. "Isso é uma desculpa para não fazer nada. Alguém da família precisa ser alertado quando o casal vive em pé de guerra. Uma discussão esporádica é normal para todo casal, mas quando há violência todo dia, há algo errado".
Ela se ampara na citação de que "a humanidade é uma grande família", de Betinho, para chamar à responsabilidade de intervir, sim. "A sociedade é cúmplice quando se omite, quando opta pelo comodismo. Não há por que se calar, deve-se interceder de alguma forma. Uma discussão na casa do vizinho é, muitas vezes, um pedido de ajuda".


Criança deve ser preservada antes e 
receber orientação para superar casos

Ambas as psicólogas são taxativas no que se refere à situação das crianças que presenciam a guerra entre pais e até mesmo o crime entre eles: são crianças que crescerão marcadas.
Para Solange, o acompanhamento de menores que presenciaram tragédias é fundamental para que essas "marcas" sejam minimizadas. "Embora a criança nunca vá superar totalmente, é necessário o convívio com quem lhe dê amor e carinho, além de exemplos das coisas certas da vida. Não é porque passou por aquilo que o menor será, necessariamente, um problema", argumenta.
Já Maria Rita alerta que esta possibilidade não pode ser descartada. "A criança poderá ter marcas que a levem, além de ser infeliz, a ser uma homicida também. A questão é que a violência ficou muito banalizada entre elas, com o que veem na TV e têm acesso nos video-games, até presenciar ao vivo e a cores em casa", analisa.
A criança deve ser preservada na medida do possível por algum familiar que percebe a situação dos pais. "A criança deve ser tirada desse ambiente de terror de gritos, xingamentos e agressões. Não é uma situação normal e é mais fácil quem está de fora perceber", diz Solange.


Publicado na Gazeta de Limeira.