Biblioteca, enfim, de portas e páginas abertas
Novo complexo é aberto ao público com conceito de espaço cultural além da leitura
Daíza Lacerda
Parecia até que o mundo ia começar em livros. Assim que as portas se abriram, rapidamente os corredores ganharam vida, num formigueiro curioso que não sabia o que buscar primeiro. Quadrinhos, clássicos, desconhecidos: os volumes saíam da inanição da estante direto para as mãozinhas inquietas das crianças. A biblioteca era, finalmente, apoderada pelo público.
Um dos pequenos arregalou os olhos quando soube que aqueles pequenos universos poderiam ser dele durante alguns dias. "Como assim, pode levar?". Simples assim, outros já haviam feito a escolha, como Lucas Gabriel Ferreira, de 12 anos, que agarrou o volume único de As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. O livro não era extenso o bastante para ele: seria o 13º volume grosso que iria encarar. Para ele, "é ótimo praticar a leitura, para ficar mais esperto na escola e não tirar nota baixa".
A nova biblioteca de Limeira também traduz o anseio dos patronos João de Sousa Ferraz e Cecília Quadros, cujo apreço pela educação e cultura foi testemunhado pela neta Luciana Ferraz e sobrinha Maria Salete Ometto Quadros, respectivamente. O acervo pessoal do escritor, jornalista e psicólogo parecia um mundo mágico, nas palavras de Luciana. Já Cecília, que tinha "coletâneas de pulsar de coração", representava Limeira aonde ia, como atesta Maria Salete.
ESPERANÇAR
Ao agradecer a todos que colaboraram para a transformação da biblioteca num espaço diferente e inovador, a secretária de Cultura, Gláucia Bilatto, citou o educador Paulo Freire. Ele dizia que não se deve confundir a esperança do verbo esperançar com a do verbo esperar. "Não se deve esperar, mas buscar e reagir ao que não tem saída. Não esperar, esperançar", declarou, na entrega do projeto que pretende servir como um espaço cultural muito além da leitura.
O vereador José Farid Zaine relembrou o início do projeto da nova biblioteca, em período que foi secretário de Cultura. À época, o modelo das grandes redes de livrarias foi uma das inspirações para criar, em Limeira, um espaço para ampla circulação.
O prefeito Paulo Hadich destacou a atuação da biblioteca mesmo com o funcionamento em local provisório, em imóvel alugado na rua Senador Vergueiro, com espaço muito menor do que dispunha anteriormente, no prédio do Museu. Abordou a continuidade do projeto, iniciado antes de sua gestão. "Tínhamos a obrigação e dever de terminar e corrigir os erros. Compreendemos que o local poderia ter uma utilização maior, e abrigará também o Centro de Ciências, que está sendo finalizado e deve aumentar mais ainda o fluxo de pessoas". Outro ponto destacado pelo prefeito é a contribuição com suporte pedagógico para todas as escolas do município, públicas e particulares.
TIJOLINHO
Diversas pessoas ligadas à educação e literatura em Limeira prestigiaram a reabertura, como a escritora Zenaide Elias e Eudóxia Quitério, que faz questão de ser referenciada como professora primária. "Alfabetizei durante 30 anos, e sei avaliar o valor disso", disse ela, que condena veementemente a prática de passar de ano alunos analfabetos. "A boa alfabetização é o tijolinho da cultura de uma pessoa", salienta a educadora, que se mostrou contente com a nova biblioteca. "Dará um impulso e permitirá dedicação maior na finalidade da instrução", considera.
Após tantas mudanças de prédio, o acervo chega para ficar ao lado do Parque Cidade. Mas, mais do que nunca, a biblioteca está sujeita à mutação, que será provocada pelo público, como expõe a coordenadora Ligia Consuelo Araújo. "Agora, vamos receber a população, acolher as demandas e continuar o projeto da biblioteca viva, agregando outras parcerias para uma biblioteca atuante. É um equipamento cultural, um espaço de acolhimento. Queremos que as pessoas venham usufruir, se apropriar, serem parceiras para aquilo que elas necessitam e querem".
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A nova casa das palavras em Limeira
Bibliotecas são reinauguradas hoje em mudança prevista há mais de cinco anos
Daíza Lacerda
As bibliotecas de Limeira reabrem hoje enterrando o conceito de instituição que "guarda" o conhecimento, procurada principalmente pela obrigação dos trabalhos escolares. Renascem com a ideia de biblioteca viva, que só existe a partir da interação do outro, seja leitor, ouvinte ou admirador, estimulados pelo que ela tem a oferecer.
A partir das 10h30 de hoje, esse público tem local definitivo para buscar ou se perder nas obras de sua escolha, no novo prédio das bibliotecas no Parque Cidade. Eles serão saudados pelos dizeres dos patronos João de Sousa Ferraz e Cecília Quadros, cujas palavras preenchem o alto de um dos lados do complexo.
"É um olhar diferente da biblioteca, e acreditamos que as pessoas vão gostar, o que é a nossa satisfação. Fizemos tudo pensando nelas, em como vão ver, se sentir", declara Ligia Consuelo Araújo, coordenadora da biblioteca. A expectativa é de quem está há 19 anos na biblioteca, acompanhando as mudanças e novas demandas, que devem ser atendidas no novo projeto.
No espaço mais amplo que já teve, a biblioteca receberá os públicos adulto, juvenil e infantil com novo mobiliário e acervo de 39 mil volumes. Se contabilizados os periódicos, são 43 mil itens. Também há espaço para a tecnologia, com computadores do programa Agenda Cidadã, e outros que devem chegar por meio do projeto do Comitê para a Democratização da Informática (CDI)específico para bibliotecas, da fundação Bill & Melinda Gates.
A partir de hoje, o visitante é livre para acessar as obras nas estantes. Mas em breve poderá folhear as obras com mais conforto, já que o mobiliário novo ainda não chegou, como poltronas e puffs. Ainda não está pronto o anfiteatro, que também depende da chegada dos móveis.
NOVA CASA
Na tarde de ontem, retoques na pintura e na comunicação visual eram feitos. Mas o acervo foi estabelecido no local no início deste ano, quando deixou prédio alugado na Rua Senador Vergueiro. A mudança começou em fevereiro e, no mês seguinte, os livros já estavam em casa nova, ainda que não totalmente organizados.
As estantes obedecem à ordem de catalogação, mas os romances, mais procurados, ficarão à frente. O Espaço Zumbi dos Palmares, com obras acerca dos negros, também está disponível, assim como os volumes em braile e audiolivros. Para os mais saudosistas, até mesmo os livros mais antigos ficarão à disposição.
No período em que a abertura foi parcial, para leitura de periódicos e pedidos de livros no balcão, circulavam cerca de 80 pessoas por dia. Já a demanda depois de aberto o acesso às prateleiras ainda é incerta. É a procura que determinará o horário de atendimento que, por enquanto, será de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Horários alternativos devem ser estudados, conforme a demanda.
Com as portas abertas, o local já tem evento programado para a próxima semana. No dia 10, a biblioteca recebe, às 15h, o autor Edson Garcia, que escreveu dezenas de livros infanto-juvenis. Às 19h, será a vez da revelação Marcos Perez, ambos pelo programa Viagem Literária, com participação gratuita.
Entre o alívio e a ansiedade de devolver o público ao acervo, Ligia faz o convite. "A biblioteca convida a todos para que venham conhecer o novo espaço. Desde aqueles que já eram frequentadores até quem estiver de passagem no parque. Entrem, conheçam e utilizem os serviços. A biblioteca é pública, da comunidade. De todos".
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